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domingo, 22 de maio de 2011

Sobre a inutilidade da arte: "o santo chora e é humano. Deus está calado." Bernardo Soares

Há sempre um lado inútil na arte porque não se traduz imediatamente em valores contabilizáveis em termos económicos. (Bom, há artes cujos objectos são apropriáveis e também transaccionáveis nesses termos como sabemos). Mas isso não é o essencial. Se servir para enriquecer e transformar a vida das pessoas a arte é inestimável e tem um valor incomensurável. Sempre existiu. Precede o capitalismo de muitos milhares, senão milhões, de anos. Mas não é assim que as artes são vistas do ponto de vista dominante hoje. O seu carácter de mercadoria tende a ocupar e desalojar a sua função primordial. Pessoalmente estou muito cansado de ver, primeiro, os artistas portugueses não muito bem tratados - alguns muito mal tratados -, segundo, o trabalho que fazem ser negligenciado ou desqualificado, por vezes, em troca de relações muito desiguais de import/export cultural no quadro global - com este défice ninguém se preocupa muito - e, terceiro, sendo os subsídios estatais o aspecto mais vezes trazido à discussão pública pelos adeptos e arautos do mercado como único critério de avaliação, daí resultarem dois efeitos perversos: 1) uma espécie de desmoralização geral nestas áreas; 2) em alguns casos, face à transformação de algumas áreas em pequenos feudos (reais) com grande capacidade de contestação, haver várias estratégias e maneiras de desfocar o verdadeiro problema, de não encarar a arte no que penso ser a sua verdadeira função e carácter; 3) justamente por haver muitas maneiras de disfarçar o que está em causa, por vezes, os próprios artistas não são capazes de evitar as armadilhas que lhes são lançadas no quadro estrutural que é próprio dos campos de produção cultural: lugares de disputas. Nada disto muda o essencial. Mas o artista é humano. Cito Bernardo Soares: "o santo chora e é humano. Deus está calado".

domingo, 8 de maio de 2011

A angústia do eleitor de esquerda face ao vazio

De que vazio falo? Aparentemente não há vazio nenhum, existem 3 partidos representados da assembleia e mais alguns fora dela. Mas falo a partir da posição expressa no texto de Boaventura de Sousa Santos no Público de 24-3-2011: "não foi totalmente por que culpa do PS que se perdeu a oportunidade histórica de criar uma verdadeira alternativa de esquerda com vocação de poder". Refere-se ao Bloco de Esquerda que cometeu o que designa por "erro histórico de pensar que havia espaço para mais do que um partido catalisador do voto de protesto e do ressentimento".

O vazio com que me defronto é esse. Por culpa dos dois partidos em questão, considerando que o PC cumpre a sua posição habitual - que tem a sua importância - não há ninguém que ocupe o espaço entre o PS e o Bloco tal como estes se apresentam. Enquanto o PS se asume no discurso como um partido que quer defender valores de esquerda - o estado social, o serviço nacional de saúde, a escola pública - fá-lo ao mesmo tempo que não consegue tomar medidas de esquerda na ordem fiscal (sobretudo em relação às grandes empresas e às grandes fortunas), que pertencendo ao arco do poder com o PSD alterna com este a distribuição de boys nos lugares das administrações de empresas públicas e assegura(rá) a governação ditada por Bruxelas e FMI. Aliás a minha angústia actual nem sequer tem a ver com programa de governo. Este já está escrito. Resta aplicar as medidas escritas pelos três que emprestam o dinheiro. No entanto esse espaço de aplicação pode permitir pequenas nuances que se venham a revelar importantes.

Penso que o PS tem sido a desgraça de Portugal. Mesmo a sabedoria de Mario Soares não me faz esquecer os escritos nas paredes aquando das anteriores entradas do FMI: Fora o governo PS-CDS; Soares-Mota Pinto Fora! etc. Isso já vimos e não foram "fora" coisa nenhuma. E quando foram foi para AD's e Cavacos.
Claro que o PSD também tem sido a desgraça de Portugal, mas isso não me interessa muito porque esse está fora das minhas opções de voto, da minha visão das coisas e do mundo. A política não se resume à governação. Inclui uma ideia de futuro. Daí a angústia. O Bloco de Esquerda prefere manter os seus discursos irrepreensivelmente de esquerda radical, o que é fácil, a assumir - ou melhor a ter assumido, porque agora será tarde - os riscos inerentes à possibilidade de participar em acordos pontuais com o PS: a tal "alternativa de esquerda com vocação de poder". É curioso verificar que nas convenções dos partidos o que determina os discursos é uma previsão da reacção favorável dos participantes, mais do que pensar para além, naquilo que seria necessário para toda a gente, para as pessoas, para a população ou o povo se quiserem. Podem ter razão no campo dos seus princípios mas não a têm no campo da realidade. Apesar de os partidos serem todos atravessados por um corte transversal que os divide internamente entre as suas esquerdas e as suas direitas, verifica-se uma espécie de congelamento dos cérebros nessas reuniões. Para este assunto talvez ler Elias Canetti que tenho em inglês "Crowds and Power".
Julgo - e veremos se terei razão - que o Bloco de Esquerda se suicidou nos últimos tempos: não abandonou nem por um momento aquilo que seria a sua política de base (se a pudesse aplicar) para considerar, como Lenine foi obrigado a fazer, que "este" - um qualquer - era o momento do "passo atrás". Um exemplo: a NEP - Nova Política Económica - dos anos 20 foi de facto uma restauração provisória do capitalismo e não sabemos até onde teria durado se Staline não tivesse tomado o poder e avançado para a colectivização forçada e os seus trágicos resultados (para os povos).

Assim sendo não tenho em quem votar com um mínimo de convicção. Esse espaço de uma alternativa de esquerda capaz de governar na situação actual -pertença à UE, pertença à zona Euro, a Europa sob a grande desorientação face à investida do dólar e sob orientação de partidos maioritariamente de direita neoliberal - o que implicaria certamente vários passos atrás à Lenine, não existe, não está ocupado, é um buraco nas opções oferecidas pelo leque dos partidos em Portugal. Ou existe o PS cedendo sempre a essas políticas - e como seria importante que houvesse um interlocutor à esquerda para o atenuar - ou existe o Bloco heroicamente fora do espaço do poder, para satisfação discursiva dos seus dirigentes e desgraça dos eleitores como eu e, talvez, satisfação dos partidos da direita que assim poderão receber o poder de mão beijada pelas asneiras dos outros. Terei de alargar o número dos abstencionistas?

Alguns já sabem que a arte - a arte como nova religião da redenção - não me chega. Talvez problema meu, mas sem dúvida pior para mim. Gostava de acreditar nesse poder redentor. Mas não consigo sair do intramundano, do mundo nos seus aspectos mais óbvios - pessoas e linguagens - e não partilho a ideia de Alain Badiou das "verdades", entre as quais ele inclui a arte. Faço o meu trabalho com o prazer inerente ao trabalho criativo mas ele não me chega para sentir que contribuo para "salvar o mundo". E estou longe de pensar como Schopenhauer e Wagner que a música é mais importante que a filosofia. Modéstia precisa-se. Aliás, sublinho para quem não tiver reparado, que as questões da "cultura" como que desapareceram do espaço público. Poderá muito bem ser um sintoma daquilo que aqui me paralisa: o vazio.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Quem escreveu isto?

" a arte, enquanto mero produto de cultura, não brotou realmente da vida, e agora, transformada em planta de estufa, não consegue lançar raízes no chão natural do presente. A arte passou a ser propriedade de uma classe de artistas; oferece prazer apenas àqueles que a entendem, e  para ser entendida exige um estudo particular, distante da realidade da vida: o estudo da erudição artística"

Richard Wagner, [1849] A obra de arte do futuro, Antígona, 2003:175