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domingo, 4 de abril de 2010

Uma perspectiva heterodoxa

Sempre que toma posse um(a) novo(a) ministro(a) da cultura assiste-se, no espaço público, ao aparecimento de tomadas de posição de várias proveniências artísticas. Normalmente é do cinema que surgem os primeiros manifestos, como o recente da Associação Portuguesa de Realizadores, depois artigos nos jornais sobre a diminuição das longas metragens portuguesas ao longo de um certo período, etc. De seguida, caso se verifique alguma nomeação suscetível de desagradar aos membros mais influentes do campo teatral ou alguma decisão polémica - ou, por vezes, qualquer decisão - nos concursos dos Institutos das Artes ou das Direcções Gerais das Artes - os seus nomes vão variando - levanta-se uma enorme contestação nos jornais sobre esses casos.
Estas são formas de presença no espaço público que denotam capacidade de mobilização e agitação mais ou menos colectivas na defesa dos interesses especificos dessas áreas artísticas.

Esta marcação do território - antes ou depois - tem já conduzido a demissões de alguns ministros ou secretários de estado. Traduz por isso uma forma de participação e poder.

Tudo se passa de modo completamente diferente no campo musical. Para começar o que está em causa é principalmente, apenas e quase exclusivamente, o que diz respeito às grandes instituições culturais. O resto vai-se arranjando como pode.

Neste momento verifica-se ainda apenas um vislumbre. A ministra da Cultura anunciou que está em negociações para substituir o director do Teatro Nacional de São Carlos. De facto, tal como referiu Augusto Seabra, e tem referido Jorge Calado ao longo do tempo no Expresso parece que a orientação da direcção de Chritopher Dammann tem desagradado à maioria dos críticos e dos melómanos que frerquentam o Teatro. Não posso dar a minha opinião fundamentada porque só assisti a meia ópera neste período. Mas vou lendo. Assim, li igualmente, em sentido contrário, uma espécie de elogio fúnebre de Dammann escrito por Mário Vieira de Carvalho, secretário de Estado na altura da sua nomeação. O último texto que pude ler foi escrito por Henrique Monteiro, director do Expresso, que surze violentamente a actual direcção e o baixo nível geral das prestações. E compara com a excelência da Gulbenkian onde se pode ouvir boa música interpretada com qualidade. Muito bem. Este será um leque-tipo das posições que são habitualmente tomadas.

Aparentemente o que está em causa é idêntico. Na minha opinião não é nada idêntico.

Quando os realizadores marcam o seu território, fazem-no para defenderem a possibilidade de fazerem os seus filmes. Não o fazem para reclamar que querem ver melhores filmes de Spielberg ou de Lucas.

Pelo contrário, o que está em causa no campo musical é na verdade um equivalente disso. Queremos ver e ouvir melhores Traviatas, melhores Normas. A Traviata de Dammann é um desastre; a Traviata de Pinamonti é melhor.

Ou seja, se existe uma estrutura de dominação cultural que no cinema é representada pelos cineastas americanos - e a sua estrutura de criação e divulgação (em Portugal a Lusomundo) não parece precisar de governos - no campo musical, o que se reclama é que a estrutura de dominação cultural que é representada pelo repertório canónico histórico seja bem defendida em todos os palcos. Queremos melhores Traviatas, melhores Turandots, melhores Siegfrieds. Considerando que de 1990 a 2010 apenas 3 óperas de compositores portugueses vivos foram estreadas no São Carlos, aliás todas rodeadas de polémicas - uma ópera e meia por década não será mau para os compositores portugueses, dirão os melómanos, os coleccionadores da Diapason ou da Grammaphone, ou os directores de jornais portugueses. Na análise de uma direcção do São Carlos nunca se considera se realizou ou não (e como, com que orçamento) obras portuguesas a não ser em nota de pé de página.

Não interessa. Porque para o culto médio português frequentador do São Carlos essa comunidade artística não existe ou não é necessário tomá-la em consideração. Por isso, sigamos o conselho do director do Expresso: faça-se no São Carlos o mesmo que na Gulbenkian. Boa música, bem tocada.
O que é que isto quer dizer "boa música"? É a música canónica histórica que domina os palcos do mundo. É isto que as elites portuguesas querem do São Carlos.

O meu único problema (sendo talvez igualmente médio/culto) é como conceber a aplicação deste critério a outros ramos da actividade pública: queremos melhores directores de jornais, queremos melhores ministros, queremos melhores realizadores. Não se poderá contratar o director do Guardian para o Expresso? Não haverá um ministro das finanças na Finlândia capaz de por em ordem a coisa "cá dentro"? Não se poderá encomendar um filmezito ao Orson Welles? Ah, que pena, já morreu.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Uma ideia fundamental de Edward Said

According to Tsenay Serequeberhan,  Edward Said observed:

“Imperialism was the theory, colonialism was the practice of changing the uselessly unoccupied territories of the world into useful new versions of the European metropolitan society. Everything in those territories that suggested waste, disorder, uncounted resources, was to be converted into productivity, order, taxable, potentially developed wealth. You get rid of most of the offending human and animal blight […] and you confine the rest to reservations, compounds, native homelands, where you can count, tax, use them profitably, and you built a new society on the vacated place. Thus, was Europe reconstituted abroad, its “multiplication in space” successfully projected and managed. The result was a widely varied group of little Europes scattered throughout Asia, Africa and the Americas, each reflecting the circumstances, the specific instrumentalities of the parent culture, its pioneers, its vanguard settlers. All of them were similar in one major respect –despite the differences, which and that was that their life was carried on with an air of normality.” (1980:78)

Tsenay Serequeberhan continues: “ […] what needs to be noted is that Europe invents, throughout the globe, “administrated replicas of itself and does so in “an air of normality” 

A partir desta posição de Said sobre a construção de pequenas europas por parte das potencias coloniais pode-se avançar para uma analogia certamente discutível ou polémica, uma vez que Portugal é um país da Europa e foi uma das potências europeias criadoras de pequenas europas nos seus próprios territórios coloniais.

No entanto, a situação do país na periferia europeia e o facto de historicamente se ter separado da Europa a partir do século XVII no processo de divisão cultural entre a Europa do centro (moderna, protestante) e a Europa “para cá dos Pirenéus” (atrasada, católica) como foi amplamente discutido e problematizado por Eduardo Lourenço e Boaventura de Sousa Santos, permite estabelecer uma tal hipótese e uma tal analogia. Uma hipótese de trabalho será a de que, entre as elites dos países europeus periféricos se terá constituído uma ideologia de emulação,  uma idêntica “imaginação do centro”, uma idêntica construção de pequenas europas, em lugares onde esse processo de subalternidade em relação às metrópoles, agora não coloniais no sentido literal, mas coloniais do ponto de vista cultural. Por isso, “metrópoles” culturais, o que se traduziu e se traduz ainda, no campo musical,  por uma prática sistemática de “compra” de artistas, de organização de festivais e temporadas, fundamentalmente preenchidas por “artistas do centro” e, ao mesmo tempo e como parte do mesmo processo, uma desconsideração dos artistas locais, vistos e considerados como incapazes de se elevarem ao mesmo estatuto cultural daqueles que se importam. A questão não reside no facto de haver temporadas musicais da chamada "qualidade internacional" mas sim no facto de elas terem como outro lado da moeda uma total incapacidade de negociação intercultural por parte das instituições portuguesas. No import/export cultural o defice é incomensurável e, como nos ensina Frederik Jameson, a questão não é apenas cultural é igualmente económica. Não é? Aqui fica um dado: a indústria cultural dos Estados Unidos está entre as 3 que mais dinheiro fazem entrar no país!

Os topoi que demonstram tal processo nas (poucas) narrativas existentes sobre "história da música portuguesa" - são apenas 3 e duas estão fora do mercadao - são a proliferação dos “introdutores” de estilos, a necessidade de se ter sempre como referência a história da música canónica do centro europeu para se poder dar um mínimo de inteligibilidade à narrativa, face às descontinuidades, a obsessão interna com "as temporadas de nível internacional" – eufemismo corrente para a supremacia prática das importações sistemáticas - e a impossibilidade de criar uma autonomia, uma tradição, uma criação. 
Prevalece a construção de “réplicas administrativas”, reflectindo sempre “as específicas instrumentalidades da cultura mãe, os seus pioneiros, os seus vanguardistas localizados”.
António Pinho Vargas, 2008