[1] in Diário de Notícias de 16 de Julho de 2006.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Uma formação discursiva recorrente e uma possível interpretação
domingo, 19 de dezembro de 2010
Sobre a aceleração em curso; para um tempo humano
Duas coincidências levam-me a escrever esta pequena nota. Primeiro, o compositor holandês Jan van De Putte, de quem sou amigo há mais de 20 anos (e teve uma peça tocada na CdM na semana que acaba) esteve em minha casa uns dias e trouxe-me uma prenda: o livro Accélération: une critique sociale du temps do sociólogo alemão Hartmut Rosa. Em segundo lugar uma conversa com outro grande mas mais recente amigo, José Manuel Pureza levou-nos ao mesmo assunto: a aceleração brutal que se verificou no mundo este ano.
Uma das ideias mais geniais do judeu alemão Walter Benjamin, nas Teses sobre a Filosofia da História, prende-se com a sobreposição de vários tempos históricos no mesmo momento real. Outra sua ideia da mesma estirpe é a que diz que cada documento de cultura é sempre e também um documento de barbárie. Demorei a perceber esta ideia uns largos anos mas julgo ter conseguido aproximar-me, pelo menos, de uma interpretação dela. Mas não é disso que agora falarei.
O livro de Harmut Rosa de 2005 (no original alemão, de que só li ainda algumas partes e devagar) parece-me ser extremamente importante para perceber o questão da aceleração que todos, de uma forma ou de outra, sentimos agora. Mas foi escrito antes de 2008, ou seja, antes da crise do "subprime" e de tudo o que se desencadeou posteriormente. Contém uma ideia que me estimula uma compreensão parcial do que se passa.
Todos sentimos cada vez mais falta de tempo para viver "o que interessa viver" diz. Quer isto dizer, julgo, que somos obrigados a viverdepressa demais coisas que não interessam verdadeiramente na vida, mas que se tornaram a razão de ser daquilo que nos é dito ser necessário fazer para "viver a vida".
Perante a ideia (optimista) de que "a acção individual, cultural e política poderia adaptar-se progressivamente às velocidades da mudança da modernidade avançada, desenvolvendo novas formas de percepção e de controlo, neste caso, graças à introdução de novas tecnologias genéticas ou de implantes informáticos."
A sua resposta vem cortante:
"Considero, pela minha parte, estas esperanças irrealistas na medida em que não se vê como estas reformas poderiam resolver o problema da dessincronização entre a política democrática e a evolução económica e técnica e de que forma elas poderiam ser postas em acção politicamente, uma vez que a possibilidade de uma governação [governance] política com os meios actualmente disponíveis é cada vez menos provável.
Acrescenta que, "mesmo que isto fosse possível, as novas formas que surgissem não seriam capazes de resistir muito tempo às novas forças acelerativas".
Que retiro daqui? Principalmente a dessincronização entre a política e a economia.
Que a maior rapidez e eficácia da economia e da técnica face a uma comparativamente muito mais lenta capacidade de acção política (com os seus procedimentos institucionais, eleições, debates, acção legislativa, aplicação prática posterior das decisões, etc.) está no centro da tremenda sensação de turbilhão em que nos sentimos.
Usando o jargão oficial de que tomamos conhecimento com maior intensidade nos últimos tempos "os mercados" agem em tempo real: um comunicado de uma agência de rating ou do FMI, provoca resultados e consequências no próprio dia em que é emitido. Qualquer acção ou reacção política, seja uma declaração de um ministro ou uma iniciativa legislativa, ou, de outro modo, uma manifestação de protesto violenta, reclama, precisa necessariamente , para ter consequências comparáveis, de muito mais tempo.
Por isso, como ajustar a política, no sentido de Jacques Rancière - a acção daqueles que habitualmente não têm poder, nem "o poder", nem nada - a esta aceleração brutal dos mecanismos que parece transformarem toda a realidade, a vida no seu todo, numa espécie de sala de uma bolsa de valores do tamanho do mundo onde écrans espalhados por todo o lado nos mostram, em tempo real, as subidas e descidas das acções?
Como fazer reduzir esta aceleração a um tempo propriamente humano e não ao tempo do dinheiro das bolsas?
Será pela via de Walter Benjamin, do súbito e inesperado salto do tigre a céu aberto, do tempo fora dos eixos de Shakespeare - the time is out of joint - em última análise, de uma revolução (que ninguém é capaz de imaginar nem como, nem quando) que seja capaz de lançar uma diferente turbulência dos tempos, uma turbulência contra a turbulência actual, da qual pelo menos sabemos onde está a origem? Creio que ninguém sabe responder.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Comentários publicados no facebook sobre A questão oculta. 1
Esta questão aqui levantada é algo que me intriga, eu que sou um ignorante na matéria, mas um ignorante interessado em perceber. Porquê no século XX esta grande divisão e, sobretudo, se há, ou se é preciso que haja, solução? Haverá convergência ou aproximação ou estamos “condenados” à divergência em absoluto? Ou a períodos alternados entre a “angústia da contaminação” e a “curiosidade mútua” que se fecundem mutuamente?
Não sabemos, nem eu nem ninguém. Parece que se irá pela via da fecundidade mútua mas "estamos no meio das coisas" e nada está escrito sobre o futuro. Teremos de ser todos a fazê-lo. O que aumenta a responsabilidade individual.
Tenho de concordar com essa hipotese de receio de contaminacao. Por outro lado, confiro a muitos intelectuais uma outra hipotese: uma que resume seus comportamentos e/ou atitudes a uma variante assente num tipo de (passo o termo) ausencia por disciplina e nao por crença ou mesmo outras. Admito portanto a reuniao de fes, crencas, e tantos outros dilemas como APV anuncia em cima.
Atenta e respeitosamente
CFC
Como compositor reflicto bastante sobre este tema. E tento reger-me pela minha vontade e autenticidade nas propostas musicais que produzo. Sinto, no entanto uma espécie de fogo-cruzado oculto! Ou dissimulado...
Quanto a tomar partido, às vezes lembro o que se dizia a respeito de Vinícius de Moraes: "Era um personagem múltiplo. Senão ter-se-ia chamado Vinício de Moral". Penso que todos temos um pouco desta vontade de multiplicidade. Pessoa constitui, nesse sentido, simultaneamente um modernista e um pós-modernista, porventura um futuro clássico. Criador de grande alcançe no seio da cultura portuguesa e mundial. Por um lado, é fragmentado em heterónimos, por outro a sua obra é una, na sua multiplicidade. É certo é que Pessoa não foi vítima do fogo cruzado, pois a sua obra só atingiu a notoriedade postumamente...
Talvez seja bom acabar este 'post' do seguinte modo: Ser Pessoa é perigoso.
"É essa luta de pessoas dentro da própria pessoa, somos dois em cada um de nós, este drama nunca se esclarece" (p. 101 de Silêncio para 4). Do que ele fala sei eu muito bem, como é sabido.
O que é importantes na reacção vienense a Mahler aos elementos "populares" por isso, impuros, contaminados pela cultura outra (de massas, popular urbana, ou mesmo rural olhada de cima para baixo, da alta para a baixas culturas) é que perdur...ou longo tempo. Só a persistência de L. Bernstein, associada ao uso por Berio na Sinfonia (1968) e ao filme do Visconti acabaram por resultar na entrada tardia de Mahler nos compositores canónicos. Pude ouvir num júri de um concurso de composição de que fiz parte em 1991 um compositor da geração anterior à minha dizer "ainda hoje me custa ouvir certas coisas de Mahler". O que lhe custava (ou custa) ouvir é o sujo, o baixo, o "ligeiro", o sem requinte, o foleiro, o próprio dos gostos do "whisling man" da rua (expressão de Babbitt). Estou certo de que estes valores aristocráticos (na verdade em não-aristocratas) continuam plenos de vigor nas mentes dos que se olham a si próprios como superiores. Não porque façam melhor música. Mas porque À PARTIDA, sendo música séria, erudita, "clássica", Art music, musique serieuse, etc. É SUPERIOR. Mesmo que nem sequer seja boa, continua superior. Uma paradoxo QUE ASSEGURA a auto-legitimação.
A questão oculta (mas sempre presente no não-dito...)
Andreas Huyssen escreveu um livro muito importante After the Greate Divide : modernism and mass culture. O que é a great divide? Segundo o autor é a impossibilidade de compreender as artes do século XX e o modernismo sem o seu oposto: a cultura de massas.
A relação entre os dois termos alternou durante o século XX dois tipos de relação: a total separação, que do lado do modernismo (em todas as artes) assumiu a forma de uma "angústia de contaminação", ou seja, qualquer obra contaminada pela cultura de massas em qualquer sentido estaria irremediavelmente marcada pela vulgaridade, pelo mau gosto do homem da rua. Em contrapartida a cultura de massas nem sequer contempla com qualquer atenção os trabalhos modernos. Ignora-os. Pode-se dizer, com Boaventura, que a arte modernista foi condenada por Adorno à fuga do mundo e "basta ver a distracção com que é contemplada". Os artistas de vanguarda vivem no terror da contaminação pela vulgaridade com que vêem e descrevem a cultura de massas. Por outro lado, nos anos 20 por exemplo, e nos anos 60/70, verificou-se outro tipo de relação: o da curiosidade mútua, a do interesse pelo trabalho do oposto dicotómico. Foram períodos de grande interpenetração e troca de experiências. Foi nos últimos que cresci. A patir dos anos 80 até 2000 voltou a dominar a angústia de contaminação. De cada lado da dicotomia olha-se sem disfarce com enorme complexo de superioridade para o lado do diferente.
Para Huyssen o grande teórico da Great Divide foi Adorno: elevou a arte moderna a único modelo e referência, do qual excluiu violentamente Stravinsky, num lance de profunda incompreensão por qualquer música não alemã, considerou o modernismo uma forma de resistência (pela via da incomunicabilidade radical) à dominação da cultura de massas - discurso que ainda hoje alimenta a auto-descrição de superioridade dos músicos e artistas modernistas e, por outro lado, condenou sem apelo a cultura de massas no seu todo, como se se tratasse de uma produção monolitica. Não era, nunca foi, tal como o modernismo esteve sempre igualmente muito longe de ser monolítico: um movimento sem contradições internas e grandes divergências. Pelo contrário teve muitas divisões e divergências internas.
Dizia Adorno: a arte só será arte se não for arte! Radica neste tipo de posições a profunda arrogância com que alguns artistas consideram o seu trabalho e seu pavor do sucesso como sinal de fracasso por defice de radicalidade. Grandes erros, só possíveis num mandarim universitário alemão, marxista ocidental ao abrigo do marxismo real da União Soviética (morreu em 1969, salvo erro) germanófilo, elitista e conservador, apesar de muito inteligente e criativo mas incrivelmente prolixo e contraditório em muitos aspectos.
Ainda hoje vivemos com as consequências dos seus erros de análise e as manifestações da vulgata adorniana, que se foi formando ao longo da segunda metade do século e se disseminou nos meios modernistas entretanto institucionalizados (e subsidiados pelo capitalismo ocidental para fazer frente à ameaça soviética e à sua visão da arte como arte de conteúdos "ao serviço do povo"), muitos dos seus conceitos e as consequências das suas posições mais discutíveis, dizia, estão ainda muito presentes nos discursos actuais sobre as artes.
Adorno escreveu textos muito bons, sem dúvida (The Essay as form, por exemplo) e outros impossíveis de ler hoje sem correr o risco de ter um ataque de fúria. Hoje estou com vontade de ter um ataque de fúria modernista e de massas.
Porque digo que a questão é oculta? Porque basta passear pelo facebook para medir de que forma ela se esconde.
António Pinho Vargas, 12 Novembro 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
Como mudar? III
O que mais me encanita é a incapacidade de mudar que sempre se tem mantido e se continua a manter. Teremos de esperar pela "volta do mar" a expectativa que os navegadores portugueses tinham de que continuando a descer o Atlântico devia acabar por aparecer um sítio em os ventos invertiam o seu sentido, conta-nos Peter Sloterdijk. (Não é engano). Sem essa crença numa possibilidade incerta, sem a coragem que a sua busca implicava - a verdadeira heroicidade colectiva, pensada, calculada como hipótese, mas com grandes riscos - hoje não haveria globalização, capialismo etc. Quem sabe e fala disto? É Sloterdijk. Nós não falamos disto.
Há a desorientação da esquerda. Ou é velha, ineficaz, às vezes estúpida (que me desculpem os que lá trabalham o melhor que podem) ou converteu-se às teorias económicas da direita europeia. Mesmo assim sobra-me uma interrogação: porque é que os partidos da direita querem tanto o poder? Será para baixar os impostos (deixem-me rir um minutinho...)? Ou para fazer como o Durão que depois de chegar ao poder argumentou que antes "não sabia em que estado aquilo estava". Depois de sair ficou pior. Mas foi premiado. Regressa o PS. Porque é que o PS age como se fosse obrigatório - there is no other way (dizia Margaret Tachter) - fazer a mesma política quase sem diferenças, esta politica que faz sempre que tem o poder? Acham que neste mundo em que os "mercados" (um nome para o funcionamento actual do capitalismo global) se tornaram entidades dotadas de desejo, de humores, espaços invisíveis dos quais comandam os destinos de milhões de pessoas alguém gosta de viver? Não há alternativa como dizia a ilustre fundadora das politicas neoliberais? A soberania dos governos locais é uma ficção nas grandes questões. Só serve para colocar alguns amigos em certas funções.
Vive-se sem democracia argumentativa. São sempre os mesmo a falar (e ganham muito bem). Ocupam praticamente todo o (reduzido) espaço público e transformam-no numa tribuna permanente a dizer as mesmas coisas. Haverá alguém - para além dos gestores das grandes corporações globais - que goste de viver neste mundo, repito? Aliás nem percebo bem porque estou aqui a escrever estas coisas. Será este o espaço dito público que nos resta? Há alguma coisa de profundamente errado nisto e não há quem nos mostre uma saída, quem nos dê uma esperança qualquer... Já sabemos que Marx se enganou em muitas coisas, sobretudo quando se imaginou "cientista", julgou ter descoberto "necessidades históricas" e pensou que o agente da transformação histórica seria o "proletariado". Wallerstein pensa que algo vai mudar - crise terminal do capitalismo - depois desta fase de transição que irá demorar entre 25 e 50 anos sendo nós - as pessoas, os movimentos sociais, os governantes - a ter o papel decisivo naquilo que vier. E previne: o que vier ou será mais justo, menos desigual, ou pode muito bem ser ainda pior. Cabe às pessoas decidir. Mas como contribuir para isso? Agir como ? Votando? Duvido muito. Em manifs à pancada com a polícia como em França e na Grécia? Paralisando o mundo com uma greve geral ilimitada? Legalizando a droga como propõe Vargas Llosa? (Sabe-se que é uma parte importantíssima da economia subterrânea e que está, diz-se, intimamente ligada com a oficial). Será que já estão em marcha silenciosa os movimentos sociais de que falou Boaventura (são sempre movimentos sociais que são capazes de tranformar).
A temporalidade de Wallerstein - até meio século - coloca-me já fora da nova estabilidade que se costuma seguir aos períodos de turbulência como este. Tenho pena porque gostava de ver como se vai passar disto para um novo período estável.
domingo, 3 de outubro de 2010
António Pinho Vargas: Portugal "não existe" no cânone musical europeu
“A música portuguesa tem uma existência muito residual fora de Portugal e não é bem tratada dentro de Portugal”, diz o compositor.
in Renascença . Música e informação.
http://www.rr.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=96&did=121516
“Quando as pessoas me perguntam sobre o que é a tese do meu doutoramento, por vezes respondo que estou a tentar provar que a minha vida não serve para nada”, disse António Pinho Vargas à Notícias Magazine, em Junho de 2008. A tese foi defendida pelo compositor ontem, na Universidade de Coimbra, e aprovada com distinção e louvor por unanimidade.
A “boutade” e o “desabafo” de 2008 referiam-se “às dificuldades que caracterizam” a vida de Vargas “e a dos compositores portugueses em geral”. Esses obstáculos foram alvo da investigação “Música e Poder: Para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu”. Será publicada em livro em 2011.
Nas várias histórias da música ocidental, que ajudam a enformar a “visão do mundo” dos alunos de música, Portugal “não existe” ou merece apenas “duas linhas dentro do quadro dos nacionalismos” musicais do século XIX. “A música portuguesa tem uma existência muito residual fora de Portugal e não é bem tratada dentro de Portugal”, diz à Renascença.
Foi para perceber as razões desta persistente posição subalterna, com raízes em séculos anteriores e que se prolongou até aos nossos dias, que Vargas se lançou à investigação. Concluiu que no século XIX os países do norte da Europa se afirmaram face aos do sul. “Portugal, a partir dessa altura, tal como Espanha, foi ‘retirado’ da Europa”, diz. No século XX, “os regimes de Salazar e de Franco aprofundaram essa separação”.
Nenhuma figura da música portuguesa consta do cânone da tradição erudita europeia, uma “construção ideológica” produzida pelos países dominantes dos séculos XIX e XX. Os compositores portugueses enfrentavam uma barreira poderosa que os condenava a uma condição de “inferioridade”: “tinham de mostrar um sabor étnico”, que seria um suposto “cartão de entrada”, não fosse, ao mesmo tempo, um obstáculo para a “universalidade” (outra “construção ideológica”) de uma obra.
A força do cânone
A situação é particularmente grave, diz Pinho Vargas, porque “essa visão do mundo é partilhada pelos próprios programadores culturais dos países excluídos”, como é o caso de Portugal. E exemplifica: a temporada no grande auditório da Gulbenkian inclui apenas uma apresentação de uma obra portuguesa. “Não há nada no mundo que não mude, mas o poder do cânone é a sua capacidade de resistir”, diz.
Pior: se é verdade que “nos últimos 20 anos houve maior quantidade e mesmo qualidade” das peças encomendadas a portugueses, elas “destinam-se apenas à estreia ou, com sorte, a duas ou três repetições”. Cerca de 90% das programações são preenchidas por obras do cânone, nenhuma delas portuguesa.
“Há um combate muito difícil a travar”, por exemplo, “no ensino, no sentido de contar a história verdadeira e não a mítica”, diz. “É necessário contar uma história que sublinhe a sua própria localização”, refere. Este combate é importante para que os compositores do futuro possam “defender o seu trabalho”.
Pedro Rios