quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
António Pinho Vargas Requiem (2012) 5. Lacrimosa. Coro e Orquestra Gulbenkian dir. Joana Carneiro.
António Pinho Vargas Requiem (2012)
5. Lacrimosa. Coro e Orquestra Gulbenkian dir. Joana Carneiro.
Coloco aqui esta secção, Lacrimosa, do Requiem, como forma de agradecer aos cantores, aos músicos, à joana Carneiro e ao Paulo Lourenço o seu extraordinário trabalho, às cerca de 2.700 pessoas que estiveram presentes comigo nos 3 concertos daqueles dias, com atenção, emoção. generosidade e entusiasmo. Não acontecem muitas vezes na vida das pessoas dias como aqueles para mim. Faço-o como agradecimento múltiplo, como uma oferenda; não se pode pedir a um compositor nada de mais fundamental que a sua música. Não há na vida das pessoas muitos dias como aqueles foram para mim. Espero que venha a existir o CD com esta obra para lhe dar o "potencial democrático" que Walter Benjamin reconheceu na "arte da era da reprodutibilidade técnica". Obrigado.
António Pinho Vargas
http://youtu.be/uRQzrvmpfHc
sábado, 5 de janeiro de 2013
"Estás a sofrer?"
Público, sábado, 5 JAN 2013: 12-13 - na série 13 pensadores: Que valores para 2013?
"Estás a sofrer?": A solidariedade e os diferentes
tempos simultâneos em que vivemos
Como considerar
a questão da solidariedade? Como é
possível conduzir uma vida com base nesse conceito? Que formas práticas pode
ela assumir? Julgo que há duas formas de pensar este problema.
Podemos
considerar, em primeiro lugar, que a pergunta fulcral para desencadear solidariedade
é a formulada por Richard Rorty: "Estás a sofrer?"
Em segundo
lugar, há uma acepção mais propriamente política, na qual se encara o
sofrimento humano como "a contradição que existe entre a experiência da
vida quotidiana, em muitas partes do mundo, e a ideia, o horizonte, de uma vida
decente" (Santos, 2004). Em que mundo vivemos, sob que hegemonia? Para
Boaventura de Sousa Santos "o neoliberalismo é uma das utopias
conservadoras para as quais o único critério de eficácia é o mercado ou as leis
do mercado." Qualquer outro critério ético é desvalorizado como ineficaz.
Nega-se radicalmente a existência de alternativas à realidade do presente e procura-se
desacreditar quaisquer alternativas precisamente por serem utópicas,
idealistas, irrealistas" (Santos, 2011). Esta "ética" da eficácia
capitalista, é avaliada de forma peculiar pelos detentores do poder - continua
a ser vista pelos conservadores como a única eficaz, mesmo quando falha totalmente - e é justamente no
meio de um processo violento desta natureza que estamos na passagem para 2013,
em Portugal. Na Europa, que se move numa lentidão institucional exasperante e
que, no essencial, se rege pelos mesmos critérios e pelos mesmos valores
conservadores neoliberais, radica a origem do imenso sofrimento humano que
decorre do desemprego galopante, dos salários cada vez mais baixos para as
camadas mais pobres, do aumento das desigualdades, do desmantelamento do Estado
social, visto como insustentável, de acordo com esse critério de análise - o
mercado como única medida de eficácia - e, desse modo, aumenta-se o sofrimento
humano de milhões de pessoas de forma brutal e persistente.
É forçoso sobrepor
os dois planos: ter em conta a pergunta de Rorty "Estás a sofrer?" e
pôr fortemente em questão a pretensão de única via possível atribuída aos
"mercados". É óbvio que há
alternativas, como houve com Lula da Silva no Brasil - muitos milhões de pessoas
retirados da pobreza - como há, mesmo nos EUA, com Obama, como se viu no Obama
Care, apesar do tremendo combate que teve de travar com a direita no quadro do
complexo sistema polítco americano. Mas, na Europa, segue-se o caminho inverso:
empobrecer as populações e retirar-lhes muitos dos sistemas sociais de apoios
estabelecidos. Entre as consequências da acção deste governo e das acções comandadas
pela troika Europeia e o FMI - pretexto ou não - verifica-se um regresso da
pobreza de forma nunca vista desde o regime de Salazar. Mas as alternativas
políticas que existem, ao contrário do que o discurso hegemónico quer fazer
crer, não respondem, por si só e neste momento particular, à pergunta de Rorty.
Vejamos a questão considerando os diferentes tempos simultâneos em jogo.
Do ponto de
vista das necessidades reais do ser
humano em sofrimento, o seu tempo existencial de vida contínua, não se pode
medir apenas no tempo médio das alternâncias politicas, nem no tempo longo das
crises estruturais.
O tempo da
crise é o tempo das crises económicas - que podem durar entre vinte cinco e
cinquenta anos - sem que, no entanto, a sua presença na actualidade mediática
deixe de nos transmitir a sensação de que tudo está por um fio: um tempo médio
ou longo, narrado como tempo frenético. Daí a estranha sensação de
uma imobilidade de fundo e de uma superfície agitada e frenética.
A luta política entre os vários responsáveis pela política global prossegue com
o anúncio de medidas para combater a crise que se revelam ineficazes para
combater a crise e são mesmo criadores de crise. Aquilo que faz a actualidade
das notícias manifesta-se de acordo com os critérios do tempo frenético dos media. Também os famosos "mercados"
financeiros - lugar por excelência da luta dos especuladores - é igualmente
regulado pelo tempo frenético. Na especulação financeira, num só dia, biliões
de dólares ou euros podem mudar de lugar, de proprietário, de banco, de
multimilionário. O tempo da economia, no sentido da acção humana produtora de
bens e mercadorias e das suas trocas, é muito mais lento do que o movimento
acelerado da troca de capitais. A tecnologia e a internet permitiram essa
aceleração brutal.
Mas para um
desempregado - aí colocado pela voragem destrutiva das medidas de austeridade,
até aqui o único remédio erroneamente proclamado para a crise - o tempo que
domina a sua vida é existencial e vive-se de acordo com o ritmo da pulsação
cardíaca, ou seja, não pára, não tem tempo para parar; é regulado pela
necessidade de encontrar todos os dias, no pior dos casos, uma forma de
sobreviver, uma forma de comer, uma forma de manter a vontade de viver. É,
desse modo, o tempo da existência quotidiana dos humanos; em cada
minuto, em cada dia, pode passar do espanto para a revolta, da fúria para um
sossego de fadiga, da luta convicta para a submissão e a desistência. É um
tempo determinado pela crise mas que obriga muitas pessoas a acções diárias de
sobrevivência: como vou arranjar dinheiro para a casa, para dar à mãe, para dar
aos filhos, para pagar a escola, onde vou viver depois de ir entregar a casa ao
banco, etc.
Os políticos,
os cientistas sociais, os economistas, os intelectuais, vivem numa espécie de
tempo intermédio: analisar, escrever, decretar, interpretar diariamente aquilo
que envia sinais provenientes da profundeza do tempo longo da economia, da
rapidez dos movimentos rápidos das bolsas financeiras e, nos casos mais
lúcidos, interpretar igualmente os sinais inquietantes enviados para o ambiente,
pelos movimentos lentíssimos do planeta, na sua rejeição imparável da agressão
violenta dos humanos das sociedades capitalistas industriais do mundo. A acção
deste vasto grupo, em particular dos políticos, sendo diária, só manifesta
mudanças de vulto nos períodos eleitorais-atualmente-carnavalescos ou nos
períodos de crise política aparente ou eventual. Daí, desse tempo intermédio da
democracia-actualmente-existente, saem, por vezes, sinais de alguma esperança para os que sofrem a crise e sinais de
preocupação para os que lucram com ela. Os sinais
são os mesmos; a sua interpretação é que varia conforme são vistos por pobres,
motivados pela pulsão da sobrevivência, ou por ricos, motivados pela pulsão destrutiva
da acumulação de capital. Esta divisão não é retórica, é real.
Esta
multiplicidade de tempos simultâneos parece mostrar que a tese de Walter
Benjamin de que, nas revoluções, "o tempo sai dos eixos" - de Hamlet,
"the time is out of joint" - se tornou o nosso tempo diário
"normal", tal como na sua outra brilhante intuição de que nas
sociedades capitalistas "o estado de excepção é a regra". Na crise
todos estes tempos se misturam e interligam.
Entronca neste
ponto a divergência entre duas tradições de solidariedade: a católica
progressista - existente desde o antigo regime - sob múltiplas formas e a
solidariedade no sentido político mais lato, vista como horizonte político
futuro de uma sociedade mais justa. Esta visão política, sobretudo a da
tradição marxista-leninista, tinha em tempos uma tal confiança no determinismo
histórico, que punha em causa toda e qualquer accção passivel de ser criticada
como "reformista", ou mesmo, "solidária". Corria, em
1970-71, entre os movimentos associativos estudantis de Lisboa, uma anedota,
provavelmente inventada - mas lúcida na sua invenção - sobre um dirigente
associativo do qual se dizia que dava pontapés no engrachador para agudizar as
contradições de classe e, desse modo, favorecer a vinda do socialismo, o
desenrolar mais rápido do processo histórico já conhecido. Hoje sabemos que não
existe determinismo histórico algum que conduza necessariamente a um destino já
previamente conhecido. Apenas a acção das pessoas do mundo permitirá sair desta
crise pelo lado da emancipação e da solidariedade.
Nesse sentido,
regressa aqui uma forma de tempo frenético
que talvez afecte também os partidos das esquerdas: a luta parlamentar diária,
a luta pelo poder entre si e a luta contra o governo de direita que absorve, de
forma diária, a sua concentração e a sua acção, imersa na vida política
aparentemente rápida. Essa actividade, certamente importante, poderá, talvez,
fazer esquecer o tempo presente em favor do tempo médio ou longo, no qual se
trava a luta fundamental que comanda a evolução das sociedades. Ora, para muitas
pessoas em sofrimento, não há tempo para esperar pela História.
Sendo certo
que, durante o regime de Salazar, "a caridade cristâ" pôde ser vista
como uma forma de eternizar o estado de coisas e que essa memória ainda nos
afecta, o facto é que, no seu tempo existencial de vida quotidiana, os excluídos,
os pobres, os desempregados, os que recorrem ao Banco Alimentar e às
Misericórdias, às Sopas dos Pobres, etc., não têm tempo para esperar pelo
desenlace da luta política, pela queda do governo, pelo fim da crise, ou outras
projecções que se podem desejar ou especular.
A atitude a
tomar será considerar que, enquanto não chega o momento da rebelião - como passo para "o momento da
solidariedade na construção de uma tópica para a emancipação" - e se está
no momento do sofrimento humano, é
necessário considerar a pergunta de Rorty e responder-lhe com acções imediatas,
independentemente dos eventuais pressupostos ideológicos que presidem àqueles
que as desencadeam. É necessário sobrepor os dois momentos: o momento político das lutas de médio e longo
prazo e o momento de solidariedade activa face ao sofrimento humano,
evitanto colocá-los como alternativas opostas e contraditórias entre as quais é
forçoso escolher.
Agir agora: "Estás
a sofrer?"
António Pinho
Vargas
Compositor,
músico, investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
Rorty, Richard
(1992), Contigência, Ironia e
Solidariedade. Presença
Santos,
Boaventura de Sousa, (2004), A Crítica da Razão Indolente. Afrontamento
Santos,
Boaventura de Sousa, (2011), Ensaio
contra a autoflagelação. Almedina
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Compor o compositor: as condições de possibilidade para "ser livre".
Porque é que terei as condições de possibilidade para "ser livre" enquanto compositor? Em boa parte porque sou periférico.
[Ponto prévio: devo tentar explicar a minha perspectiva sobre os diferentes olhares. O que é que vê um periférico? Vê o que se passa no seu país e aquilo que lhe é dado conhecer pelos dispositivos de divulgação dos países centrais; desse modo conhece relativamente bem a música de hoje feita em França, na Alemanha, na Inglaterra e, em menor grau, na Itália e nos Estados Unidos. Mas não conhece a música feita nas outras periferias, em Espanha, na Grécia, na Irlanda, na Bélgica, na Dinamarca, na Suiça, na Bulgária, na Roménia, na Rússia, etc., a não ser a dos compositores destas periferias que emigraram para o centro. O que é que vê e conhece um compositor dos países centrais? Vê acima de tudo o se passa no seu país, ignorando não apenas a música de todos os periféricos como igualmente a música dos outros países centrais, excepto a daqueles que fazem parte do 'subcampo contemporâneo', a parte da produção musical que tem o aval de instituições europeias como o Réseau Varèse e outras similares de menor peso. Nesse sentido cada compositor de um país periférico conhecerá mais mundo do que os dos países centrais, ofuscados que estão, como afirma Kundera, pelo brilho da sua própria cultura]
A resposta, aparentemente paradoxal, que reclamo para a minha pergunta, passa por uma análise das formas como é vista a figura do compositor nos países centrais. Estes países dotados de dispositivos de poder, tanto de condicionamento como de distribuição ou irradiação - cada vez mais reduzida, em verdade - que são apenas operativos se associados a uma determinada ideologia que define o compositor como "autónomo" e "heróico". Esta ideologia tem uma história, espaços de enunciação originários, instituições que simultaneamente a regulam e são reguladas por ela, em intrínseca interligação.
Trata-se de um imaginário sem o qual todo o edifício institucional associado ao "mundo da arte" musical colocaria em questão a sua própria razão de ser. Nesse sentido é indispensável para a manutenção do actual estado de coisas.
Estes conceitos reguladores, estes imaginários partilhados não se circunscrevem aos países centrais da Europa, ou de forma mais lata, ao Ocidente. O seu alcance é mais vasto e abrange as diversas tribos locais locais, periféricas e semi periféricas, sem as quais não haveria mercados importadores para os produtos culturais provenientes dos países dominantes. É por isso crucial para as ideias reguladores do campo musical e do subcampo contemporâneo sejam capazes de ser aceites como verdadeiras para além dos países centrais.
Esta tripla associação entre conceitos reguladores, imaginários partilhados e dispositivos de poder económico-culturais que gerem a dominação geocultural no campo musical é crucial para qualquer das três componentes principais do complexo edifício ideológico que lhes serve de base de sustentação e de sobrevivência. Como condição fundamental desta crença está a ideia universalista: uma ideia que toma imediatamente como válido em qualquer lugar do mundo aquilo que origináriamente é apenas local.
Neste quadro o compositor local, periférico, inexistente face às estruturas de selecção e exclusão do subcampo central e transnacional, ignorado ou marginalizado nos seus próprios países, encontra aí, ao mesmo tempo, o seu limite e a sua possibilidade de libertação criativa. Como se processa este fenómeno, aparentemente contraditório?
A sua possibilidade de autonomia criativa face às correntes dominantes é-lhe dada, de forma paradoxal, pelos limites impostos pela inexistencia global mas reclama uma segunda condição.
Essa segunda condição - a libertação possível mas não garantida à partida das estéticas dominantes - só se pode realizar através da autoconsciência face ao funcionamento complexo das componentes ideológicas, das ideias aceites e correntes em geral, do seu imaginário difundido como verdadeiro. Sem essa assunção consciente de não-pertença, nem do ponto de vista da realidade, nem do ponto de vista do horizonte de expectativas, verifica-se um fenómeno particular de falsa-consciência. Neste caso o compositor periférico trabalha e produz comandado pelos valores e crenças que recebe e assume como seus, sem com isso alterar substancialmente a sua condição de periférico. É a imaginação-do-centro que alimenta o equívoco de pertença a um mundo do qual só existe a imaginação dele.
Mas, se existir essa consciência de pertença a um lugar de enunciação especifico - exterior aos valores dominantes nos centros - o compositor periférico liberta-se das várias formas de pressão ou dominação semi-invisíveis. Primeiro, liberta-se da ideologia dos "mais avançados", da pressão das ideias do "estado da linguagem musical"; segundo, da primazia das correntes aí dominantes, em cada momento histórico - que, aliás, neste momento particular são diversas mesmo nos diferentes países centrais - e terceiro, pode estabelecer para si próprio um outro conjunto de valores em que acredita, criar laços de afecto com o público do seu país com o qual interage - dando e recebendo - e com o qual partilha a condição da periferia, e desse modo, criar uma individualidade distintiva, que não poderia alcançar fora desse lugar de enunciação.
Não é por acaso que a grande parte dos compositores emigrantes, depois de 1950 até hoe, assumiram como seus os valores dominantes dos países onde foram acolhidos; de outro modo o conflito estético resultante teria provocado a dificuldade de, simplesmente, trabalhar. Face às actuais diferenças entre os países centrais, que só a ideologia universalista torna invisíveis - uma vantagem do periférico: ver o que os outros não conseguem ver - não é indiferente emigrar para a França, ou a Alemanha, ou a Inglaterra, embora este aspecto não tenha sido até hoje objecto de grande reflexão publicada. De certo modo ouve-se nas obras dos compositores emigrantes (da segunda metade do século XX até hoje) a marca indelével do contexto cultural escolhido, da narrativa aí predominante, a par com aquilo que sobra para constituir uma assinatura de autor. Muitas obras foram compostas nas quais é possivel à simpels audição detectar essas marcas. Algumas dessas obras são boas composições. O que está em jogo não é da ordem do julgamento de valor mas sim da marca geocultural. Na verdade cada lugar, cada contexto, cada sistema de ensino, cada estrutura institucional, contribui fortemente para "compor o compositor".
Considerando as principais correntes que existem neste momento na vida musical do subcampo contemporâneo e também alguns compositores (por exemplo, entre muitos outros, como Sofia Gubaidulina, mas que, de outro modo, tem muito trabalho e é bastante tocada em instituições mais tradicionais e menos contralizadas) que, de algum modo, não marcam presença regular nele, especialmente na sua estrutura institucionalizada que é o Réseau Varèse, rede que dispõe de apoios de fundos da UE e que corporiza a continuidade da dominação longínqua, herdeira do eixo Darmstadt - IRCAM, irei procurar descrever aquilo que, a meu ver, marca a minha diferença enquanto periférico e enquanto não alinhado pelos valores centrais dominantes.
Em primeiro lugar não partilho a ideia de unidade, coerência, lógica, construção, conjunto de conceitos base das tendências pós-seriais dos vários matizes. Esta corrente caracteriza-se igualmente por manter fidelidade ao conjunto de interditos cuja origem remonta a Schoenberg. Os interditos são em particular acordes perfeitos, oitavas e ritmo regular ou pulsado, todos vistos como sobrevivências anacrónicas e reaccionárias do sistema tonal, declarado extinto pela visão linear da evolução da linguagem musical de raiz hegeliana. Este conjunto complexo de princípios base e interditos práticos (mais ligados a uma filosofia da hstória da música do que aos procedimentos eles-próprios, (cf. o artigo Racionalidade(s) e Composição, 1999) é seguido pelos favoritos do Réseau Varèse que prolongam e prosseguem esta orientação. Há certamente algumas peças compostas por este grupo compositores que considero boas peças, apesar de não partilhar os seus princípios, nem os seus pressupostos.
O facto de não tomar essas ideias como válidas hoje, permite-me não apenas não considerar nenhum dos seus interditos, como não partilhar os conceitos organicistas derivados de Goethe - unidade, coerência, lógica - e, em consequência, abrir como zona de livre invenção e de imaginação criativa a construção de "regras" para cada obra, sem por isso sentir como necessário o estabelecimento de qualquer conjunto de principios teóricos base. Nesse sentido vejo o acto de compor da forma que Stanley Cavell descreveu como característica da arte moderna: "O artista deve criar a sua obra num modo de radical auto-reflexão". (Hammer: 2002: 98)
Conheço aqueles princípios nas suas várias encarnações históricas e realizações artísticas e estou longe de demonizar essa corrente como um todo. Sou, no entanto, crítico feroz da primazia que algumas instituições e dispositivos culturais atribuem (ou atribuíram) a essa corrente, mesmo antes de ouvirem as obras, quaisquer que sejam. Trata-se de incluir à priori com base em preconceitos estabelecidos e na hegemonia.
A recusa dos princípios base assenta na rejeição de uma possível enunciação sua, apriorística. Isto não significa que eles não regressem, eventualmente, noutra fase posterior. É durante a própria composição das peças que se estabelecem as "regras" que lhes são próprias, que se desvendam gradualmente como necessidade - de acordo com os meus critérios específicos de coerência e lógica discursiva que me parece que aquela obra, em particular, reclama - e não por serem entidades prévias, absolutas, universais e indiscutíveis. Cada momento histórico, cada corporização de um estilo de uma época ou de um compositor - normalmente estabelecida posteriormente, a partir da visão de um conjunto de obras do passado - mostra-nos que, mesmo no caso da longue durée que a tonalidade constitui, os critérios de avaliação daqueles valores foram, eles próprios, mudando ao longo do tempo. Assim sendo - o que me parece consensual - seria muito estranho que o nosso tempo tivesse levado a cabo uma inversão dessa ordem das coisas, criando formas indisputáveis daqueles conceitos reguladores.
Aqui reside a contingência essencial da arte: cada obra explica o seu próprio ser ou não explica.
Por outro lado, na sequência do trabalho dos minimalistas americanos, um vasto número de compositores, com destaque para os de língua anglo-americana, passaram a utilizar sobretudo a partir de 1980, não apenas ritmos pulsados regulares, mas gradualmente um conjunto de princípios harmónicos próximos da tonalidade, muitas vezes associados ao uso da orquestração e da instrumentação totalmente de acordo com o que define academicamente "uma boa orquestração" à maneira do final do século XIX ou da primeira metade do século XX, em certos caso expandidos com harmónicos superiores em maior ou menor grau derivados de análises e dos procedimentos espectrais, característicos da corrente francesa do mesmo nome, para eventualmente enriquecer a harmonia, no fundo de base tonal e tornar a sonoridade mais "moderna". Também neste caso se verifica existirem uma série de ideias herdadas, de lugares-comuns aceites mas muito aquém de poderem ser indiscutíveis. São formulações provisórias de que cada um possui uma visão particular ou individual. Não é certamente o maior ou menor número de aderentes que dá a uma corrente a menor possibilidade de reclamar o estatuto de "verdade". Trata-se apenas de substituir uma série de convicções por outra série de convicções e traduz-se numa determinada prática ou num conjunto de práticas.
De uma forma geral não sigo igualmente estes procedimentos. Não pretendo, à partida, que as minhas peças tenham uma sonoridade tradicional, um discurso leve, nem as formas harmónicas que Richard Taruskin designa por New Age. Mas, do mesmo modo, nada me garante que, do ponto de vista da recepção, elas possam eventualmente recebidas como tal. Entre as intenções do compositor e a forma como o seu trabalho é recebido, há a barreira que sempre existe entre o fazer e o percepcionar - entre a poiesis e a esthesis - que está para além daquilo que um compositor pode controlar. Faz o seu trabalho, lança-o no mundo, mas depois as possibilidades de recepção e de interpretação são infinitas, sendo isto válido para todas as obras e todos os compositores.
Julgo no entanto que é relativamente evidente que há sempre, na minha música recente, uma componente de sujidade face a estes critérios estéticos. No mesmo sentido penso que um acorde perfeito (ou imperfeito) não precisa de uma 'aura' que lhe dê uma aparência de modernidade. Moderno poderá ser tanto o discurso que encontra o atonal como o tonal, o belo como o "feio". O feio - de acordo com os critérios do 'belo musical' do anterior paradigma - tem uma enorme importância. Há quem lhe chame sublime usando a diferença kantiana. Devo dizer que é das coisas mais difíceis de tantar explicar a outros e a defender perante críticas, tal como do mesmo modo, fazê-lo inversamente a propósito de uma secção tonal, lírica, espressiva, etc, face a modernistas para os quais o simples aparecimento de tais atributos é imediata razão de rejeição. Em última análise cada um tem de compor sempre de acordo com as suas convicções e não com as de outros. Se vacilar nisto estará a um passo de uma espécie de perdição.
Prosseguindo, conforme as peças - cada uma é um artefacto artístico diverso de todos os outros - pode haver maior ou menor importância dessas componentes que referi, mas julgo que é no seu disurso articulado que se encontra a produção de sentido. Cada compositor possui as suas idiossincrasias, um conjunto de idiosincrasias, que são fulcrais para lhe dar a possibilidade de assinar.
A melodia - a mais misteriosa de todas as 'ciências humanas' como disse George Steiner - é justamente aquele parâmetro musical, digamos deste modo, no qual aquilo que é mais próprio de cada compositor se manifesta, mesmo quando na superfície não há melodia. Há sempre melodia, uma linha que conduz, por maior que seja a massa sonora. Por isso, porque é que depois desta nota deve ser esta e não aquela? Porque é que depois deste bloco sonoro deve ser esta linha ínfima e frágil e não aquela? Estas perguntas remetem para a questão da forma e, também neste aspecto, não há modelos pre-definidos. Existe o exercício constante de auto-reflexão e auto-avaliação sem recorrer a modelos numéricos ou a sucessões ou multiplicaçõa dos tradicionais grupos de quatro compassos. Se houvesse modelos pré-definidos e utlizáveis compor seria fácil.
A liberdade é a mais dura das disciplinas.
António Pinho Vargas, 1-1-2013
sábado, 8 de dezembro de 2012
O efeito de distinção e o regresso da arte ‘aurática’: considerações a propósito do meu Requiem, da sua recepção e do seu destino.
O efeito de distinção e o
regresso da arte ‘aurática’ como modo predominante do funcionamento do campo
musical contemporâneo: considerações a propósito do meu Requiem, da sua
recepção e do seu destino.
Bourdieu escreveu sobre a recepção da obra de arte: “uma vez que a obra
de arte só existe na medida em que é percepcionada – quer seja um mero prazer
estético ou um modo de gratificação mais indirecto como o efeito de distinção - não
é necessário acrescentar que tal só é acessível para aqueles que estão dispostos
para se dela apropriarem porque lhe
atribuem um valor”. (Bourdieu, The field of cultural production, 1993:
227)
Se a percepção estética será individual, enquanto possibilidade, já no efeito de distinção, a aceitação do
valor, decorre directamente de um determinado crença social e simbólica que
está assumida como sendo válido para aumentar o capital cultural do
frequentador de concertos.
Não tenho interesse em questionar – e duvido mesmo da eficácia
conclusiva de um tal inquérito - qual dois dois modos de percepção da música
tem a primazia nas motivações secretas dos frequentadores das salas de
concertos.
Interessa-me mais sublinhar a presença desse efeito de distinção, seja
em que proporção for, associado ao requinte espiritual, ao carácter quase
ritual que sempre está presente nos concertos da música da tradição europeia em
oposição aos eventos provenientes da cultura de massas, dotados de baixo (ou
diferente) capital cultural e, por isso, produtores de um efeito antagónico:
reduzem o capital cultural que se tenta acumular. Na vida musical europeia do
século XX em diante, a tensão entre a alta cultura da tradição clássica e a
cultura de massas emergente produziu
muitas vezes aquilo que Abdreas Huyssen designou por ansiedade de contaminação.
Tanto os artistas – músicos, compositores, etc – como os consumidores melómanos procuraram,
nessas fases, evitar o mais possível qualquer vislumbre de “contágio”
resultante do contacto com produtos da cultura de massas. Esse contágio era
visto como signo de inferioridade cultural, ou defice de radicalidade, ou ainda
do pior atributo que neste meio cultural pode ser lançado contra alguém: o mau
gosto. Não é necessário acrescentar que
o conceito de “bom gosto” é uma construção social e não existe sem debates infindáveis.
Neste contexto quando Walter Benjamin, no seu famoso artigo “A arte na
era da sua reprodutibilidade técnica”, vislumbrou potencial democrático nas
artes reprodutivas que analisou – o cinema e a fotografia – terá talvez
negligenciado a capacidade infinita de, seja qual for o suporte, ser possível
reconstituir efeitos de distinção diversos que se recolocam nestas artes passiveis
de reprodução técnica através dos mecanismos sociais que os estabelecem. No
caso da música que Benjamim, não tratou, apesar de o aparecimento da gravação
ter tido posteriormente as maiores consequências no própria funcionamento da
vida musical institucional, em breve constituiu, por um lado, o tal potencial
democrático que alargou o acesso das obras executadas nos concertos a vastas
camadas da população que, não podendo, eventualmente, assistir a esses concertos
por razões geoculturais da mais variada natureza, pôde tornar-se familiar com
numerosos produtos discográficos, tanto históricos como actuais, que se foram tornando progressivamente mais
numerosos e “representativos”.
Nos países centrais da Europa – os países onde se localizam as editoras dotadas de grande prestigio simbólico, a Alemanha, a França e a Inglaterra – existe ainda, mau grado a proclamada crise da indústria discográfica, a capacidade de criar, consagrar e distribuir gravações a que podemos ter acesso regular. Pelo contrário nos países periféricos, como Portugal, a capacidade de criar esses produtos é muito menor e a capacidade de os distribuir é ainda menor, para não dizer quase nula.
Nos países centrais da Europa – os países onde se localizam as editoras dotadas de grande prestigio simbólico, a Alemanha, a França e a Inglaterra – existe ainda, mau grado a proclamada crise da indústria discográfica, a capacidade de criar, consagrar e distribuir gravações a que podemos ter acesso regular. Pelo contrário nos países periféricos, como Portugal, a capacidade de criar esses produtos é muito menor e a capacidade de os distribuir é ainda menor, para não dizer quase nula.
Verifica-se então a seguinte realidade que reúne e põe em relação tudo
o que disse até aqui.
Em Portugal o número de gravações é reduzido; a sua presença nas lojas
é igualmente reduzida nesta area. As instituições culturais que encomendam
obras a compositores, raramente manifestam interesse em realizar gravações das
obras que encomendam, com poucas excepções, que confirmam a regra. Deste modo se consubstancia, tanto um aumento do efeito de distinção, ligado à frequência de concertos, como um
regresso do modo de existência aurático, associado ao anterior modelo
aristocrático e pré-moderno de produção cultural. De que modo?
Não havendo em geral gravações, em especial das obras de maiores
dimensões, que reclamariam obrigatoriamente o financiamento das instituições
culturais e o seu interesse nele, os concertos desse tipo de obras (óperas,
oratórias, peças para grande orquestra) passam a ter caracteristicas únicas, o
que as aproxima fortemente da arte aurática anterior. Dando um exemplo recente
que me diz respeito – embora esta análise possa ser aplicada a muitas outras
obras minhas e a muitos outros
compositores – os dois concertos na Fundação Gulbenkian do meu Requiem,
dirigido por Joana Carneiro, perfilam-se no horizonte como “momentos auráticos”,
os momentos efémeros, típicos da música tal como ela existia na fase anterior à
invenção da gravação, em que a obra existiu enquanto realidade sonora aquilo
que, para mim, constituiu a essência da música. O facto de existir uma das suas
condições de possibilidade futura – a partitura – não altera este facto. Na
verdade, as instituições culturais que operam nesta área em Portugal existem, fundamentalmente,
enquanto produtoras de concertos, detentoras em certos casos de orquestras
próprias, e só muito esporadica e contextualmente, manifestam interesse
relevante pela fixação dessas obras. Quando existem gravações – como, neste
caso, as feitas pela Antena 2 – não se destinam a distribuição comercial como
se verifica com numerosas obras lá existentes nos arquivos. É um facto que este tipo de objecto cultural –
os discos de música de compositores portugueses – estaria destinado a uma
existência precária: edição pequena, desaparecimento rápido das lojas e vendas
irrelevantes. Deste modo o potencial democrático que Benjamin entrevia na
reprodução técnica, existe noutros países com a pujança possível numa forma de
arte em crise – as vendas destes produtos são igualmente diminutas nesses
países, se comparadas com as vendas dos produtos da indústria cultural global –
mas não existe em Portugal e noutros países das periferias europeias, se não
nos termos já referidos, incapazes de enfrentar e derrubar os obstáculos
criados à sua existência, interna e externa, pelos dispositivos de poder
existentes nos países centrais.
Assim sendo, o evento em-si-mesmo configura-se como um momento
particular de uma percepção sensível, único, que ficará na memória dos músicos
que o fizeram e das mais de duas mil pessoas que assistiram e o saudaram
efusivamente – para grande alegria e satisfação do compositor e, presumo, dos
intérpretes – e que por isso, podem reclamar o prazer estético, no caso de o
terem sentido, em qualquer caso o efeito
de distinção que a arte aurática permite – eu estava lá – sendo isto válido seja qual for a opinião pessoal de
cada um sobre a obra. Na arte não há consensos, nem nunca houve, ao contrário
do que o discurso canónico nos fez crer longo tempo: há supremacias históricas
e, como tal, provisórias.
Estas transformações que estamos a viver, de todos os pontos de vista,
em Portugal e no mundo, traduzem-se finalmente por um regresso inusitado à
antiga forma de percepção da música pré-moderna, dado o facto de coexistir, no
mesmo momento histórico, o descarte da possibilidade da fixação reprodutiva para
certos produtos, e a continuação da encomenda de novas obras, destinadas ao seu
momento aurático. Quando, numa revista do IRCAM, L’inuï, Nicolas Donin afirma, em 2005, que as estreias são, na maior parte
dos casos, não apenas a primeira mas a única apresentação das obras e que a
consciência desse facto, sendo cada vez mais partilhada pelos músicos, que
assim vêem a sua responsabilidade acrescida – não vão apenas estrear uma obra,
vão fazê-la de uma vez para sempre – (L’Inuï, nº 1,
2005: 31-50) mostra-nos que este fenómeno não é exclusivo
de Portugal, nem dos países periféricos. É um fenómeno amplo, que está
certamente associado ao lugar marginal que esta música tem vindo a ocupar cada
vez mais, em particular algumas das suas muitas correntes, mas afectando
praticamente todas elas - apesar do voluntarismo imaginativo com que, por vezes,
se procura ignorar -, ao seu desaparecimento dos vários media – dominados pelos
interesses da indústria cultural global – à sua produção activa de produtos
culturais como inexistentes ou não merecedores de grande nota, mesmo na
imprensa dita de referência.
A tribalização - a divisão em muitíssimas práticas musicais - prossegue
e com ela surgem novos modos de existência e de negociação de poder no espaço institucional
e no espaço público.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Morton Feldman: artigo de 1967 sobre o ensino universitário da composição nos Estados Unidos
Morton Feldman:
Algumas frases do artigo Boola Boola de 1967 sobre o ensino da composição nos Estados Unidos nessa época.
[…]
"Se um homem ensina composição numa universidade, como poderá ele não ser compositor? Ele trabalhou duramente, aprendeu o seu ofício. Por isso, é um compositor. Um profissional. Como um médico. Mas existe aquele médico que nos abre, faz exactamente o que tem a fazer, nos fecha - e nós morremos! Ele não conseguiu aproveitar a oportunidade que poderia ter-nos salvo.
A arte é uma operação crucial, perigosa, que realizamos em nós mesmos. A não ser que aproveitemos a oportunidade, nós morremos na arte.
Torna-se cada vez mais óbvio que para estes tipos [these fellows] a musica não é uma arte. É um processo de ensinar professores a ensinar professores [It is a process of teaching teachers to teach teachers] Neste processo é o mais natural que a música do professor não seja diferente da do professor que ele está a ensinar. [In this process it is only natural that the music of the teacher will be no different from that of the teacher he is teaching] A liberdade académica parece ser o conforto de se saber que se é livre para ser académico.
Um pintor que continuadamente acaba pinturas exactamente iguais às de Jackson Pollock estaria rapidamente a caminho do Rockland State Hospital [um equivalente, creio, ao Hospital Júlio de Matos em Lisboa]. Na música nomeiam-no chefe do departamento.
[…]
Morton Feldman (1985) Essays, Beginner Press
Este texto, na sua maravilhosa comicidade, é, no entanto, da maior importância para se perceber a diferença entre o que é a arte - que nos pode matar - e o que é o academismo - que nos permite ganhar a vida.
Algumas frases do artigo Boola Boola de 1967 sobre o ensino da composição nos Estados Unidos nessa época.
[…]
"Se um homem ensina composição numa universidade, como poderá ele não ser compositor? Ele trabalhou duramente, aprendeu o seu ofício. Por isso, é um compositor. Um profissional. Como um médico. Mas existe aquele médico que nos abre, faz exactamente o que tem a fazer, nos fecha - e nós morremos! Ele não conseguiu aproveitar a oportunidade que poderia ter-nos salvo.
A arte é uma operação crucial, perigosa, que realizamos em nós mesmos. A não ser que aproveitemos a oportunidade, nós morremos na arte.
Torna-se cada vez mais óbvio que para estes tipos [these fellows] a musica não é uma arte. É um processo de ensinar professores a ensinar professores [It is a process of teaching teachers to teach teachers] Neste processo é o mais natural que a música do professor não seja diferente da do professor que ele está a ensinar. [In this process it is only natural that the music of the teacher will be no different from that of the teacher he is teaching] A liberdade académica parece ser o conforto de se saber que se é livre para ser académico.
Um pintor que continuadamente acaba pinturas exactamente iguais às de Jackson Pollock estaria rapidamente a caminho do Rockland State Hospital [um equivalente, creio, ao Hospital Júlio de Matos em Lisboa]. Na música nomeiam-no chefe do departamento.
[…]
Morton Feldman (1985) Essays, Beginner Press
Este texto, na sua maravilhosa comicidade, é, no entanto, da maior importância para se perceber a diferença entre o que é a arte - que nos pode matar - e o que é o academismo - que nos permite ganhar a vida.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Porque é que os argumentos de Cavaco Silva para não demitir o governo são falsos?
Nos últimos meses tem sido relativamente claro que a visão do
Presidente da República e a do Governo estão longe de coincidir. Caso após caso
verifica-se uma diferença - ténue ou
enorme, conforme as questões - de
posição. Então porque é que Cavaco não
demite o governo? Tento aqui apresentar uma lista de razões que são
apresentadas pelos que não querem a demissão do governo. Trata-se de tentar fazer passar como evidências quando não passam de ficcções.
1- Portugal está sob ajuda externa. Marcar eleições iria ser um desastre
1- Portugal está sob ajuda externa. Marcar eleições iria ser um desastre
Este argumento é, no essencial, antidemocrático. Houve eleições em
França, houve eleições em Espanha, países que não estando “resgatados", estavam
face a dificuldades claras. Mas na Grécia houve eleições – duas vezes –e só não
houve antes um referendo, porque os europeus da CE entraram em pânico
anti-democrático. Mesmo assim é o que se tem visto. Nem com este governo, nem
depois de aprovado no Parlamento Grego o novo (?) plano de resgate, o dinheiro
da Troika vai para lá. Até Manuela Ferreira Leite afirma que apesar de tudo
isto “a Grécia ainda existe”. Isto demonstra que não é o facto de haver ou não
haver eleições que determina o que quer que seja. A questão base é, parece-me assegurar os
juros dos bancos alemães e europeus, acima de tudo. Por mais que a crise se aprofunde disto é que não abdicam.
2- Ficar sem orçamento de estado ia ser um desastre. Não se pode negociar.
Outro argumento falacioso. E ficar com este orçamento vai ser bom?
Quanto toda a esquerda, e muitos outras instâncias oficiais, para além de muitas
ilustres personalidades da área política do governo reclamam que este orçamento
irá ser – ele sim – um modo de conduzir à catástrofe, para além de ser talvez
inconstitucional, usar este argumento é erro crasso e falsidade. Erro crasso
porque no futuro irá dificultar qualquer negociação do plano. Falsidade, porque
com todos os dados que existem, com todas as posições que tem sido tomadas
publicamente, inverter a questão dizendo que sem orçamento seria um desastre,
resulta de má fé. Com este orçamento é que vai ser um desastre, diz meio mundo.
Não poderá dizer que não o avisaram.
3- Cabe ao governo governar e tem legitimidade para o fazer.
3- Cabe ao governo governar e tem legitimidade para o fazer.
Também o governo de Sócrates tinha legitimidade quando Cavaco fez o
discurso que deu sinal/ordem ao PSD para não aprovar o PEC IV e derrubar o
governo minoritário com o famoso argumento “há limites para os sacrifícios”.
E agora, já não há limites? Por muito menos do que “isto” Sampaio
demitiu o governo incompetente do saudoso Santana Lopes e fez bem. Mas Cavaco
tem muito mais medo, porque o resultado iria ser o mesmo: derrota do PSD. A
legitimidade perde-se quando o exercício do poder é autista. Este governo ao recusar fazer qualquer esforço para negociar com as instâncias superiores da Troika, procura disfarçar que não conseguiu cumprir os seus próprios objectivos. Perde legitimidade. Tem legitimidade formal mas não tem legitimidade substancial. É uma espécie de Cavalo de Tróia da pequena troika. Não faz aquilo que todos os outros governos do sul da Europa têm feito. Tentar melhores condições, melhores juros, etc. Por isso, uma das
verdadeiras razões para não demitir é o facto de havendo eleições a derrota do
“seu” partido ser mais que certa.
Que outras razões obscuras lhe assistem? Medo de vinganças eventuais
dos “seus amigos do BPN”, como dizia o peculiar candidato presidencial? Continua
à espera que os que falam publicamente em seu nome – Ferreira Leite e vários outros
da área do PSD, e mesmo conselheiros de estado – convençam o governo “morto” –
mas afinal vivo – a mudar de rumo? Não
me parece. De cada vez que Cavaco fala, Passos e Gaspar estão-se nas tintas para
o que ele diz e, algumas vezes fazem
logo a seguir o contrário.
Ontem (8-11), António Costa afirmou que, em Março do próximo ano, caso não actue, o
Presidente terá de enfrentar “uma espécie de levantamento popular”, por não ter
exercido os seus poderes na altura devida.
Cavaco parece ter muito menos medo disso do que de demitir o governo. O
que será que lhe ata as mãos e o eventual raciocínio?
António Pinho Vargas
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
O crédito está no centro da crise mundial
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António Pinho Vargas, Novembro de 2012.
O crédito está no centro da crise mundial.
O crédito está também no centro da crise em Portugal. Lembram-se da ida
em bloco dos banqueiros a Sócrates que levou ao pedido de “ajuda externa”?
Sócrates resistiu o mais que pode ao resgate, isso ninguém pode negar. Mas o
PEC IV – que Merkel aprovou, lembram-se? – não foi aprovado na Assembleia e
levou à queda do governo. Consta que, quando Ferreira dos Santos lhe colocou o
resgate como obrigatório ou teria de pedir a demissão, Sócrates lhe atirou com
o telemóvel. Mau feitio. Mas a ideia de tentar evitar o resgate não era estúpida, como temos visto.
Vindo o resgate tão reclamado os primeiros a ficarem satisfeitos foram
os banqueiros. Hoje financiam-se a 1% e financiam o Estado a 5%. ou próximo
disso, segundo tenho lido. Belo negócio. É injusto e incorreto. Não poderia ser
de outro modo?
Apesar de todas as ameaças, a Grécia continua a negociar mais um
resgate. Dizem que não, que não pode ser, mas lá vai mais um resgate. Porquê?
Porque é igualmente um belo negócio para quem empresta dinheiro a juros de
agiota. O mesmo se passa em Portugal. Uma boa parte dos cortes nos salários
destina-se, não a pagar a dívida externa, mas a pagar os juros do empréstimo.
Outro belo negócio. Por isso a troika de cada vez que vem ver as contas
preocupa-se antes de mais com o verificar das “reformas” com vista a receber os
juros combinados. Os credores – como às vezes se designam – talvez se estejam nas tintas
para as populações de Portugal, Grécia, Espanha, Irlanda, Itália etc., a não ser
na medida em que os problemas desses países podem afectar os seus próprios
negócios e a cobrança de juros. Daí que, ainda no primeiro resgate à Grécia, a Alemanha lhes tenha
vendido submarinos, a França lhes tenha vendido Mirages, etc. Como Cohn-Bendit
denunciou no Parlamento Europeu. Tem isto qualquer sentido a não ser fazer
muito dinheiro? É isto uma União? Estranha forma de união.
A “refundação” de Passos – não há mais impostos para cobrar – nunca
contribuirá para por em questão o aumento das desigualdades em Portugal. Pelo
contrário, visa reduzir o mais que pode as despesas com as funções essenciais
do Estado, para que a banca, os especuladores e os credores, possam continuar
com os seus negócios de acumulação de capital, mau grado a destruição da
economia e o empobrecimento da população em geral que isso acarreta como
consequência. Isso não lhes interessa. Uma vez assumindo que não se pode mexer
nessas exorbitâncias em jogo, nem nos escândalos dos negócios legais,
semi-legais ou ilegais, na Suiça ou nos offshores, não admira que não haja
dinheiro. Vai todo para esses destinatários.
São por isso consistentes as propostas que o Bloco de Esquerda apresentou e que
hoje Francisco Louça refere em entrevista ao Público. Por exemplo: “a
renegociação da dívida passa por dizer aos credores institucionais, incluindo o
BCE, que Portugal não lhes vai pagar os 35 mil milhões de euros de juros porque
eles são financiados a 0% e não podem cobrar a 4%”. Parece justo, não parece?
Nestas questões, segundo os critérios dos media, conta muito quem faz a proposta. Se for Louça, passa por ser um irrealismo esquerdista; mas se for Cadilhe a dizer que se deve renegociar a dívida, já é vista como proposta séria. Esta distinção de análise é preconceituosa e ideológica.O seu lema é: só “os nossos” é que percebem de economia. Não tem sentido como argumento e, na verdade, pode-se pensar que “só os nossos” é que fazem tudo para preservar os termos profundamente injustos dos negócios. Um país não é um negócio ou, pelo menos, até agora, não era.
Nestas questões, segundo os critérios dos media, conta muito quem faz a proposta. Se for Louça, passa por ser um irrealismo esquerdista; mas se for Cadilhe a dizer que se deve renegociar a dívida, já é vista como proposta séria. Esta distinção de análise é preconceituosa e ideológica.O seu lema é: só “os nossos” é que percebem de economia. Não tem sentido como argumento e, na verdade, pode-se pensar que “só os nossos” é que fazem tudo para preservar os termos profundamente injustos dos negócios. Um país não é um negócio ou, pelo menos, até agora, não era.
Assim se mostra um dos aspectos cruciais da atual fase do capitalismo: “A crise manifesta-se na
crescente escandalosa e ignominiosa desigualdade económica, e consequentemente
social, que está rapidamente a aumentar entre sectores inteiros que vivem na
pobreza ou em extrema pobreza, enquanto as fortunas de um pequeníssimo grupo de
magnatas crescem sem limite.” in Uncertain Worlds, World-system analysis in
changing times, Carlos Roja e I. Wallerstein, et al.: 2012: xxvii.
É o pressuposto de que é necessário manter a possibilidade de
acumulação de capital por parte desta minoria privilegiada que faz diminuir as
soluções possíveis. Uma série de medidas são consideradas à partida como não-aplicáveis.
Porquê? São não-aplicáveis apenas de acordo com a ideologia política e
económica dominante no mundo, controlado pela finança. Outra orientação é
possível caso mude o poder político.
Quero dar exemplo provocatório para lembrar realidades passadas, por
isso, com base histórica. Caso fosse o sinistro Estaline a ter o poder,
acompanharia medidas desta naturezam, e doutras, com recomendações do tipo:
“Fuzilar 4 ou 5 kulaks [pequenos proprietários rurais] por distrito, para dar
o exemplo”, como se pode ler nos livros que estudam a maneira como foi
implementada a colectivização forçada da terra, nos anos 30 na URSS.
Como ninguém quer fuzilar ninguém, embora queira mudar de política, o
que é totalmente legítimo, talvez seja de considerar a justeza das análises do
sistema-mundo. Face à sensação de
bloqueio do sistema político em Portugal, cito ainda do mesmo livro: “Há uma
crise, total e estrutural em todos os níveis da política; estende-se ao nível
dos estados-nação, uma vez que os estados estão cada vez mais incapazes de cumprir
as suas funções básicas, fornecerem um mínimo de serviços aceitável, segurança,
saúde pública e educação às suas populações. Estão também cada vez mais
incapazes de conseguir ou manter uma mínima legitimidade ou credibilidade entre
as mesmas populações. […] Cada vez mais a maioria das pessoas identifica a
política como um vira-e-toca-o-mesmo rodando em torno de si próprio, uma área
na qual na realidade não representa […] sectores cruciais dos cidadãos em
geral. […] Trata-se de uma crise
total do mundo político e dos políticos em geral que hoje está esvaziada de
qualquer relação com as esferas sociais, éticas e culturais. Num futuro próximo
[…] isto pode manifestar-se numa cada vez maior e mais difícil, total
desapontamento com estas politicas por parte dos habitantes do mundo como um
todo”.
Este desapontamento, que é global, contém em si o perigo que
gera e alimenta populismos salvadores ou estalines potenciais, mas é inegável
que já existe de forma bem clara não apenas perto de nós, como em todo o lado,
onde ainda se pode manifestar livremente o desejo de mudança.
Seria por isso importante que as alternativas reais que existem
deixassem de ser descartadas à partida com base do argumento falacioso de que
não se pode rasgar o acordo. Não se pode rasgar, dir-se-á, mas pode-se, e
sempre se pôde, renegociar.
António Pinho Vargas, Novembro de 2012.
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