quinta-feira, 26 de junho de 2014

Como vejo hoje o (meu) futuro?

A questão do futuro é talvez a que mais nos atormenta. Antes de mais nada porque, apesar da profusão de previsões de todo o tipo, o futuro caracteriza-se por não ser conhecido. Logo do ponto de vista existencial. Temos um prazo de vida. Não sabemos quando irá terminar o nosso prazo. Cada um de nós vive como se não houvesse prazo ou fim. Se calhar deve ser assim, sob pena de se tornar demasiado angustiante. Ao mesmo tempo, seguindo Immanuel Wallerstein, o futuro do mundo depende de nós, das pessoas do mundo. Aceito esta ideia sobretudo naquilo em que ela afasta do horizonte os determinismos históricos que durante muito tempo alimentaram optimismos sem sentido (sabemos hoje) ou crenças em futuros radiosos. Não é assim, como fomos vendo dolorosamente.

Mas para todos os efeitos, no que me diz respeito, há uma série de aspectos em relação aos quais, um mínimo de modéstia me obriga a considerar para além da minha acção, da minha capacidade de acção. Começando pela música, a área principal da minha actividade, são mais as dúvidas do que sequer as convicções.

Em primeiro lugar a temática da minha tese Música e Poder, segue impávida: os dispositivos de poder quer internos quer externos ou transnacionais. Não espero nada. Luto, como é minha obrigação de estar-vivo, mas a lucidez impede-me que cair no erro de pensar que haverá mudanças de fundo. Penso que alguns colegas lutam pelo seu trabalho (como eu) mas com as antigas convicções ou com um optimismo que gostaria de partilhar mas não consigo. Há duas razões para isso. Em primeiro lugar, o facto de ter sido músico (de jazz ou lá o que aquilo era), mostrou-me duas coisas: uma real inscrição no social, uma sensação de vida vivida. Daí decorre uma segunda consequência: ter subido a palcos muitas centenas de vezes deu realidade a uma experiência prática do que é tocar música para pessoas, do que é marcar presença, uma presença. Julgo que se pode aplicar o conceito de inscrição a tal passado. Daqui não deve retirar-se nenhuma noção de maior (ou menor) competência ou capacidade. Trata-se apenas de um vivido biográfico. Mas dá-me uma perspectiva das coisas que nenhum outro pode ter, porque não a viveu. Em segundo lugar conheço bem o que posso fazer e aquilo que não posso nem quero fazer. Nunca soube ou quis fazer grandes "contactos". Nada a fazer.

A música escrita que fiz até hoje, nos casos mais importantes - não considero tudo o que fiz do mesmo modo, nem tenho grande apreço por catálogos de desperdícios - destina-se a efetivos muito grandes, orquestras, óperas, coros e orquestras, movimentando por vezes mais de uma centena de pessoas. É justamente nessas obras - Judas, Requiem, Magnificat, Os dias levantados, Outro Fim, Grafitti, Six Portraits of Pain e algumas mais - que a ideologia dominante das estreias as coloca perante um futuro problemático, mesmo apenas no interior do país. Dado o facto de haver um forte centralismo e de, no segundo centro, a cidade do Porto, a direcção artística da Casa da Música não manifestar nenhum interesse em as apresentar para além do que já o fez (3 encomendas) - não posso obrigar a sua direcção artística a gostar da minha música e, como tal, a sentir nenhuma obrigação institucional de incluir essas obras na sua programação. Reclamando bastante gente custariam dinheiro, para além do resto. E o resto é que o lema das instituições é sempre a estreia e a mostra cosmopolita - necessária não fora excessiva, nem implicasse uma exclusão sistemática de compositores e músicos - de artistas e obras provenientes dos centros donde irradia a dominação criada pela história (antes) e pelos meios de difusão e autoridade de que dispõem (hoje). Não sendo estreias nem sendo provenientes dos centros não me restam grandes hipóteses. Sei que outros colegas (e muitos músicos) - que, ou nunca lá foram ou que foram em tempos mas deixaram de ir - olham para essa orientação de forma muito negativa. Muito bem, têm esse direito. Sei que outros me vêem com cheio de uma sorte invejável. Será sorte, talvez.
O público, aí como noutros locais, não se manifesta, aceitando aquilo que lhe é dado como natural. "Este ano vem cá o Berio ou o Stockhausen" (se fossem vivos). Como não são vivos, vêm os seus sucessores nos locais de enunciação que determinam as escolhas nestas práticas musicais.
No meu caso, um entre outros, considero a questão praticamente encerrada. Nem Judas, nem Requiem, nem Magnificat, serão ouvidos alguma vez na cidade onde vivi 40 anos da minha vida e na qual vivem muitos dos melhores amigos que tenho. Está dito.

Dado o centralismo típico do resto do país é melhor nem falar. Terei a estreia de Quadros (de arte moderna) na próxima semana (dia 4-7-14) pela OCS em Faro. Mesmo nesta dimensão de orquestras clássicas, não há muitas cidades do país onde tal possa ocorrer. O panorama é pouco animador em muitos locais e cidades do país, apesar de alguns municípios se destacarem pela positiva, com festivais e apoios a iniciativas.

Julgo que a sociedade portuguesa põe em acção mecanismos subtis de destruição ou de desqualificação lenta ou rápida mas sempre inexorável do nosso trabalho e de muitos outros artistas. Posso ver isso com alguma clareza no destino dos compositores que já morreram. Na melhor das hipóteses ocupam um lugar simbólico, ilustre, mas pouco mais. O caso de Emmanuel Nunes é paradigmático. Em vida, teve presença regular nos Encontros da Gulbenkian, teve dela um número de encomendas que será incomparável por muitos anos (23 obras) e, nos últimos dez anos da sua vida, o seu lugar privilegiado desviou-se para a Casa da Música. Tudo isto mesmo considerando que o seu lugar de enunciação era Paris, onde vivia desde 1964. Aliás, após a sua morte, foi no IRCAM que lhe foi realizado um concerto de homenagem. Nem na Gulbenkian nem na Casa da Música houve espaço ou vontade para um acontecimento similar. Se fui crítico do seu estatuto anterior e excessivo de "favorito" durante muitos anos, devo dizer que sou igualmente crítico do seu rápido esquecimento posterior. Nem o 80 era correcto, nem o 8 é digno. No entanto o Remix Ensemble continua a fazer algumas obras suas nos locais dos países centrais que sempre foram os seus. Essa é a razão principal. A autoridade decide e determina as escolhas.  

Verifica-se deste modo o processo atávico de anulação do que foi feito (da memória recente) nesta área onde "nada se inscreve". A leitura das entrevistas do livro de Sérgio Azevedo de 1998 "A invenção dos sons", mesmo passados já mais de 15 anos, será ainda útil para identificar esse estatuto de "não-inscrição" que marca, no essencial, esta prática musical na sua relação com a sociedade e os discursos de vários compositores.

Há o público. Aquele que esteve presente nas estreias das minhas peças e nas dos outros compositores. Esse público existe. Ouviu as obras, comoveu-se com elas ou não se sentiu tocado por elas. Que assim seja é normal. Existe o plural para irritação dos que vêem o mundo a preto e branco. O que aconteceu, aconteceu. Não pode ser apagado. Pode é ser desqualificado, por acção ou omissão.

Na área política a situação tem traços de bloqueio, de permanência, de estabilidade-instável da qual não se vislumbra saída, que são igualmente preocupantes. Por agora deixo esse problema para mais tarde.
António Pinho Vargas, 26-6-2014

sábado, 21 de junho de 2014

A cansada e infinita perplexidade.

A cansada e infinita perplexidade.

Em 2012 e 2013 fizemos manifestações grandiosas e assinámos dezenas de petições. Muitos sindicatos e associações profissionais desfilaram em protestos.
Esperámos quase sem nenhuma expectativa que Cavaco mostrasse que não era totalmente medíocre. Era ainda pior que medíocre e o seu nome ficará gravado a negro para sempre. Nem sequer uma palavra sobre o Tribunal Constitucional e os ataques do governo da direita à qual pertence. Jurou cumprir e não cumpriu.
Assistimos no topo do aparelho de Estado ao seu exemplo e, do exemplo de Portas, vimos a mensagem subliminar transmitida para toda a sociedade de que tudo é possível e que a vergonha não tem medida nem limites. O carácter e os valores são arcaísmos já fora de uso. As consequências do exemplo vindo do topo fazem-se sentir no quotidiano de todas as profissões: "se ele pôde fazer aquilo e nada aconteceu, então também eu posso fazer o mesmo". Do ponto de vista simbólico esse foi um momento tremendo de consequências impossíveis de medir.

Esperámos que os vários partidos de esquerda e os movimentos de cidadãos que surgiram conseguissem produzir um acordo mínimo qualquer. Nem mínimo nem máximo. Nem creio que alguma vez sejam capazes de um tal acordo. É a sua história há muito tempo. A divisão e derrota sobrelevam os poucos momentos de acordos de curtíssima duração e pouca eficácia.
Esperámos que as várias eleições produzissem mudanças na Europa neoliberal. Não produziram. Derrotámos o governo nas duas eleições que ocorreram sem que nada de muito importante ocorresse posteriormente. Cavaco vai manter a desgraça até ao fim, de acordo com a sua vacuidade.
Todas estas expectativas foram sucessivamente frustradas.

Esperámos, depois, que Seguro fosse capaz de perceber as suas próprias limitações, irmão-gémeo de Passos Coelho no percurso carreirista-tipo dentro dos partidos que os corroeu por dentro. Não percebeu e vai arrastar na sua queda coisas ainda impossíveis de prever. Agora que António Costa avançou, verificámos ainda que a mediocridade dos apoiantes de Seguro é ainda pior que Seguro-ele-próprio, a outra face da moeda do pior governo que alguma vez pudemos imaginar como possível.

O mito do país "sociologicamente de esquerda" foi desmentido, penso, pelo outro lado que marca este país em espelho, o lado herdeiro dos filhos de Salazar, herdeiro dos longos anos de ditadura. Esse lado não mudou, esteve lá sempre, secretamente à espera do momento da vingança; a naturalidade das prescrições de banqueiros, das irregularidades nos bancos e nas famílias dos "donos de Portugal" mostra que, para essa gente de património ilustre, a democracia não constitui qualquer problema e vai matando sucessivamente qualquer esperança de justiça. Não há justiça a funcionar. O regular funcionamento das instituições é desmentido todas as semanas por essa e outras vias. A justiça é um dos pilares do estado de direito e não me digam que funciona.

A perplexidade que nos atinge já ultrapassou todos os limites da descrição possível. É por essa razão que Pacheco Pereira repete com frequência a expressão "o primado da lei". A necessidade que sente dessa repetição deriva da acção de um governo sempre no limiar do ilegal, sempre no limiar da expressão plena, e sem disfarces, do desejo de ditadura sem entraves.
Além disso o estado da UE e o estado do mundo revolve-nos as entranhas.

Escrever este texto foi sentido por mim como que um canto do cisne já exausto e moribundo. Perante este estado de coisas, o cansaço que tomou conta de muita boa gente absolutamente farta é plenamente compreensível. É que há limites.

APV

sábado, 14 de junho de 2014

O incompreensível existe mais do se possa pensar na vida académcia musical

Richard Taruskin é polémico, por vezes, agressivo e tempestuoso, cria inimizades e amiúde trava debates, ferozes por vezes, por essas razões.
E por uma outra: diz o que pensa e fazê-lo nem sempre é bem visto no elegante mundo em que vivemos. Aliás ele próprio afirma que o seu hábito não é definir uma agenda mas "upset agendas" [perturbar agendas]
Um exemplo. Começa deste modo o resumo do artigo de uma conferência que proferiu sobre Bartók na Hungria, publicada em 2006.

"The astonishing omission of Bartók - inadvertent, but justified by the editor ex post facto - from the recent Cambridge History of Twentieth-Century Music prompts reflection on why Bartok is such an indispensable figure in any adequate account of the music of this time - and after."

As omissões surgem normalmente dos países centrais que é onde se publica mais e, por vezes, melhor. Quem omite ou exclui, normalmente omite porque tem um programa inverso a cumprir: incluir outros e reproduzir visões e hegemonias já estabelecidas ou em formação. Taruskin defende no artigo que a razão principal na origem desta omissão é a germanofilia instalada e naturalizada da musicologia inglesa.

António Pinho Vargas

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Retrato do artista moderno enquanto snob e a porta das trazeiras segundo Zygmunt Bauman.

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Retrato do artista moderno enquanto snob e a porta das trazeiras segundo Zygmunt Bauman.


É comum vermos o artista moderno tratado como herói. Alguns o foram de facto. Bauman apresenta-nos uma tremenda visão de outro tipo que não deve deixar ninguém indiferente.
Tudo o que é comum aos históricos dos anos 20: todos tem um espírito pioneiro, olham para o estado das artes com nojo e aversão, são críticos em relação ao papel assumido pelas artes na sociedade, todos desprezam o passado e ridicularizam os cânones recebidos, todos teorizam sobre os seus próprios caminhos e meios, introduzindo um sentido histórico profundo aos seus resultados artísticos; todos se apropriam do modelo do movimento revolucionário, preferem actuar colectivamente, criaram e aderiram a movimentos de carácter sectário, discutiram acaloradamente programas comuns e escreveram manifestos; todos olharam bem para lá do campo artístico especifico, vendo as artes e os artistas como as tropas avançadas do exército do progresso, uma antevisão colectiva do futuro que aí vinha e por vezes, uma força destinada a pulverizar os obstáculos que encravavam o caminho da hstória.
   Mais modernos que a modernidade, actuavam em seu nome e com a sua permissão: talvez ainda mais dogmáticamente, encaravam como único uso possível da tradição, saber aquilo que tem de ser quebrado, as fronteiras para serem transgredidas.
    Adquirem impulso, coragem e autoconfiança da ciência e da tecnologia: impressionistas da óptica antinewtoniana, os cubistas da teoria da relatividade anticartesiana, os surrealistas da psicanálise, os futuristas dos motores de combustão e das linhas de aço.
    Quiseram servir a modernidade, não foi sua culpa terem de se impôr, face à sociedade relutante ou indiferente. A culpa era das pessoas de gosto datado, na linguagem modernista, pessoas sem gosto, incapazes ou não querendo compreender os resultados as descobertas da vanguarda. Agruparam este grupo, atroz e lamentável na imagem do "burguês", chama-ram-lhe vulgar, inculto ou diletante. Sem opinião relevante.
     A estes imaturos, retardados, os modernistas quiseram mostrar a luz, ensinar, educar e converter; só poderiam manter a sua posição de vanguarda tratando os outros de ainda-não-realizados, imersos na escuridão, à espera da iluminação.
     Às vezes, zangam-se, ficam perplexos e embaraçados perante a evidente obstrusidade mental dos seus assumidos seguidores.(…) Como regra, os alunos nunca são tão bons como os professores, e, por isso, havia um constante fornecer de razões para estar furioso.
     Mas só ficavam verdadeiramente chocados e horrorizados naquelas (raras) ocasiões em que as lições pareciam demasiado fáceis e sem dificulda-de, as suas posições obtiveram aprovação geral, e as obras adquiriram popularidade. Neste caso a distinção entre a vanguarda e o resto, entre alunos e professores caía por terra. Se aplaudiam em lugar de resistir, se não se sentiam chocados e perplexos isso seria seguramente resultado de insuficien-te radicalismo, desleixo na vigilância, indesculpável compromisso, com o gosto que deviam combater.
      O paradoxo da vanguarda foi tomar o sucesso como sinal de fracasso, a derrota como confirmação de estar certo. A vanguarda sofreu quando o reconhecimento público foi negado mas atormentou-se ainda mais quando o sucesso finalmente chegou. Media a justiça das suas razões e o progressismo dos seus passos pela profundidade do seu isolamento, e pela resistência daqueles que era suposto converter. Quanto mais vilipendiados mais certo era a causa ser justa.
     Incomodados pelo horror de aprovação popular, a vanguarda avançou para formas artísticas cada vez mais difíceis e desejávelmente menos digerí-veis. 
      Aquilo que era suposto ser uma condição temporária - a vanguarda ia à frente, tinha uma ideia de que o resto das tropas estava na retaguarda, mas iria avançar mais tarde ou mais cedo, era esta a metáfora militar - transformou-se imperceptívelmente no objectivo definido, no fim em si e num esta-do de permanência. Não era preciso, nem sequer desejável que o resto das tropas avançasse.
    Ao contrário das declarações de intenções, parece que os mais avança-dos destacamentos dos intelectuais europeus tivesse levado a cabo um esforço concertado para excluir as massas da cultura; não havendo outro risco excepto manter a distância e assegurar a superioridade; sendo a significância da minoria artística calculada na proporção directa da sua capacidade para confundir e ultrajar as massas.
W. Benjamim escreveu que a modernidade nasceu sob o signo do suicídio. Neste paradoxo estava a semente da perdição. A ruína viria por dois lados.
Para começar, a aceleração não ajudou. Por mais que tentasse, a vanguarda não pôde separar-se claramente da populaça que temia e tentava instruir ao mesmo tempo. O mercado rapidamente cheirou o enorme potencial estratificador que transportavam "as artes incompreensíveis". Rapidamente ficou claro que, quem quisesse mostrar aos seus pares o seu progresso no mundo e tivesse meios para o assegurar (dinheiro!) podia adornar a sua casa com as últimas invenções da linha da frente, que espan-tavam e assustavam as pessoas normais, pouco refinadas. Mostrar simultâ-neamente o seu bom gosto e a sua distância do resto inculto e sem gosto.
Na opinião de Peter Burger foi o espantoso sucesso comercial que deu o golpe final na arte de vanguarda, incorporada no mercado artístico, "integrada" - dir-se-ia há uns anos - tendo chegado a significar distinção social, a arte de vanguarda encontrou clientes interessadíssimos, na classe média arrivista, insegura da sua posição e ansiosa por se apetrechar com símbolos prestigiantes.
Na sua principal capacidade estética, a arte de vanguarda podia, como dantes, afastar os espectadores/visitantes, chocar e deixar estupefacto. Na sua outra capacidade, extratificadora, atribuidora de prestígio, atraíu cada vez maior número de admiradores acríticos e, mais importante, compradores. O aplauso que a vanguarda simultâneamente desejava e temia entrou pela porta das trazeiras: como consequência da febril procura de portáveis e adquiriveis símbolos de posição superior.
Por outro lado, a tentativa de escapar da armadilha da aceitação popular tinha os seus limites. Mais tarde ou mais cedo chega-se à parede; seguindo Umberto Eco, o limite da vanguarda foi atingido na tela vazia ou carregada, nos desenhos apagados de Rauschenberg, na galeria de Nova York vazia na exposição privada de Yves Klein; na peça de piano de 4' 33'' de silêncio de John Cage, na exposição telepática de Robert Barry, nas páginas em branco de poemas não escritos.
O limite das artes vividas como revolução permanente foi a autodestruição. Chegou o momento onde não havia mais para onde ir. O fim chegou de fora e de dentro. Os mundanos recusaram ser mantidos à distância.

António Pinho Vargas, in Sobre Música, ensaios, textos e entrevistas, Afrontamento, 2002
p. 142-144            



Bauman, Zygmund, The PostModernity and its Discontents, p.96 e segs. Aqui resumo e traduzo o brilhante texto de Bauman.

sábado, 19 de abril de 2014

Porque devemos ler todos os livros de Richard Taruskin?

Porque devemos ler todos os livros de Richard Taruskin a que pudermos deitar mão?

Porque ninguém como ele já há longo tempo contribui para pôr em questão os numerosos mitos que existem sobre a música, o seu presente e a sua história. (mesmo considerando o irritante facto de na sua de resto notável Oxford History, o único nome de um português ser D. João V. É irritante mas, ao mesmo tempo, é instrutivo.)

Do capítulo Et in Arcadia Ego Or, I Didn't Know I Was Such a Pessimist until I Wrote This Thing, originalmente uma comunicação no Seminário de Chicago On the Future, proferida em 1989, publicado pela primeira vez em The Danger of Music, and other anti-utopian essays, (2009), University of California Press.

"Se estão adequadamente preparados para a minha visão do futuro na medida em que se relaciona com o passado devo localizar o presente em relação ao passado. De facto é uma das coisas mais úteis que se pode fazer hoje, porque a narrativa habitual da história da música no século XX - a narrativa académica de qualquer maneira - é um pacote descarado de mentiras, ou na melhor das hipóteses de evasivas, provocada pela adesão a uma bizzara visão da história do século XIX enquanto um 
unívoco progresso linear.
Estou bastante envergonhado por ter de admitir perante a minha presente audiência que a maior parte dos músicos ainda acreditam nesta antiga doutrina mesmo depois das suas medonhas consequências no século XX, mas acreditem que o fazem, especialmente os compositores das vanguardas de ontem, que hoje ocupam os mais conspícuos lugares do poder". (17)

Deve-se ter em consideração a data da conferência: 1989. Hoje, no que respeita sobretudo aos compositores; existe uma relação de forças diversa na maior parte do mundo. 
Mas, por outro lado, creio que "a narrativa académica e o seu pacote descarado de mentiras ou evasivas" ainda ocupa o mesmo lugar nas crenças de uma boa parte das instituições dedicadas ao ensino da música e no imaginário do público em geral.
Há numerosas publicações generalistas, especializadas e salas de aula onde um tal discurso se continua a reproduzir no essencial, aqui e ali, com alguns ajustes, mas ainda mais, aqui e ali, sem nenhum tipo de ajuste. 

António Pinho Vargas

Crenças nas dicotomias inúteis

Acabei de ouvir no programa das sextas-feiras de Francisco Louçã, seis pequenos fragamentos de seis canções destes 40 e tal anos. Ponto prévio sobre a minha opinião. Adoro aquelas músicas. Não são sinfonias, nem sonatas, não são quartetos de cordas, nem peças escritas para piano, mas esse facto não constitui nenhum problema de qualquer espécie, nem assinala nenhum tipo de inferioridade. Essa é uma forma conservadora (e de conservadores) de olhar a música, como se vivessemos no século XVIII e nunca saíssemos do fausto dos palácios. Não vivemos nesse século, os palácios já não existem e, para além disso, não vejo o mundo dessa forma: dividido por uma barreira abissal entre a alta (escrita) e a baixa (oral) cultura nem tenho paciência para quem não percebe isto de qualquer dos lados da dicotomia. Estes termos, muito usados no mundo da língua anglo-saxónica contêm em si com frequência a própria declaração de incompreensão da diversidade das formas artísticas de hoje. Aquelas são canções maravilhosas que se fizeram e cantaram em Portugal, muitas vezes por milhares de pessoas e têm dentro de si universos de sentido tão plenos, tão intensos como qualquer outro dos muitos artefactos humanos chamados música; tenho por eles admiração e amor. Pertencem a outra tradição musical que emergiu no século XX mas esse facto (histórico) não lhes retira nem um milímetro da sua imensa beleza, grandeza, da sua enorme importância.
Há uma dominação global da música pop-rock anglo-americana e há uma dominação mais restrita, no campo da música da tradição europeia escrita, dos produtos provenientes dos países centrais. Trata-se de um dado factual do estado do mundo que pode/deve ser analisado e estudado. Mas - e aqui reside uma diferença que nunca deverá ser esquecida - mesmo desses "lugares de enunciação" de onde provêm esses dois tipos de dispositivos sistémicos de dominação cultural, se produziu e se produz muita música maravilhosa, tal como muita música que não o é, como acontece em todo o lado (na minha opinião).
A crítica (sociológica) destas dominações não é, por isso, uma crítica de grandes obras nem de grandes canções, do passado ou do presente. É uma crítica da sua pretensão de exclusividade ou de superioridade. São coisas muito diferentes, são dois planos de análise. Já o referi muitas vezes mas fá-lo-ei as vezes que forem precisas. Uma diz respeito às relações de poder transnacionais na actual fase. Outra coisa será partir deste facto e misturá-lo com julgamentos de valor decretados à partida, a maior parte das vezes ligados a pretenças identitárias, tanto sociais como ideológicas, tanto reais como imaginárias. Tudo o que é decretado à partida - ou seja, algo que é herdado, que está já estabelecido antes de se pensar - pertence à categoria do pre-conceito.
Aliás dispensa mesmo qualquer pensamento porque releva de crenças aceites e sedimentadas como "naturais", como dados da natureza.
Quer se queira quer não o mundo é diverso e muito mais rico do que pode alcançar o nosso ilusório auto-centramento face ao Outro. Julgo que quem não consegue gostar, nem sequer conhecer, o Outro - seja qual for - dificilmente gostará de si próprio. O lema desta atitude será: "o mundo é aquilo que o meu olhar conhece e pode alcançar".
Infelizmente está bem distribuído transversalmente nas nossas sociedades e gera disputas inúteis.

18.4.2014
APV