quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A questão oculta (mas sempre presente no não-dito...)

Andreas Huyssen escreveu um livro muito importante After the Greate Divide : modernism and mass culture. O que é a great divide? Segundo o autor é a impossibilidade de compreender as artes do século XX e o modernismo sem o seu oposto: a cultura de massas.
A relação entre os dois termos alternou durante o século XX dois tipos de relação: a total separação, que do lado do modernismo (em todas as artes) assumiu a forma de uma "angústia de contaminação", ou seja, qualquer obra contaminada pela cultura de massas em qualquer sentido estaria irremediavelmente marcada pela vulgaridade, pelo mau gosto do homem da rua. Em contrapartida a cultura de massas nem sequer contempla com qualquer atenção os trabalhos modernos. Ignora-os. Pode-se dizer, com Boaventura, que a arte modernista foi condenada por Adorno à fuga do mundo e "basta ver a distracção com que é contemplada". Os artistas de vanguarda vivem no terror da contaminação pela vulgaridade com que vêem e descrevem a cultura de massas. Por outro lado, nos anos 20 por exemplo, e nos anos 60/70, verificou-se outro tipo de relação: o da curiosidade mútua, a do interesse pelo trabalho do oposto dicotómico. Foram períodos de grande interpenetração e troca de experiências. Foi nos últimos que cresci. A patir dos anos 80 até 2000 voltou a dominar a angústia de contaminação. De cada lado da dicotomia olha-se sem disfarce com enorme complexo de superioridade para o lado do diferente.
Para Huyssen o grande teórico da Great Divide foi Adorno: elevou a arte moderna a único modelo e referência, do qual excluiu violentamente Stravinsky, num lance de profunda incompreensão por qualquer música não alemã, considerou o modernismo uma forma de resistência (pela via da incomunicabilidade radical) à dominação da cultura de massas - discurso que ainda hoje alimenta a auto-descrição de superioridade dos músicos e artistas modernistas e, por outro lado, condenou sem apelo a cultura de massas no seu todo, como se se tratasse de uma produção monolitica. Não era, nunca foi, tal como o modernismo esteve sempre igualmente muito longe de ser monolítico: um movimento sem contradições internas e grandes divergências. Pelo contrário teve muitas divisões e divergências internas.
Dizia Adorno: a arte só será arte se não for arte! Radica neste tipo de posições a profunda arrogância com que alguns artistas consideram o seu trabalho e seu pavor do sucesso como sinal de fracasso por defice de radicalidade. Grandes erros, só possíveis num mandarim universitário alemão, marxista ocidental ao abrigo do marxismo real da União Soviética (morreu em 1969, salvo erro) germanófilo, elitista e conservador, apesar de muito inteligente e criativo mas incrivelmente prolixo e contraditório em muitos aspectos.
Ainda hoje vivemos com as consequências dos seus erros de análise e as manifestações da vulgata adorniana, que se foi formando ao longo da segunda metade do século e se disseminou nos meios modernistas entretanto institucionalizados (e subsidiados pelo capitalismo ocidental para fazer frente à ameaça soviética e à sua visão da arte como arte de conteúdos "ao serviço do povo"), muitos dos seus conceitos e as consequências das suas posições mais discutíveis, dizia, estão ainda muito presentes nos discursos actuais sobre as artes.
Adorno escreveu textos muito bons, sem dúvida (The Essay as form, por exemplo) e outros impossíveis de ler hoje sem correr o risco de ter um ataque de fúria. Hoje estou com vontade de ter um ataque de fúria modernista e de massas.
Porque digo que a questão é oculta? Porque basta passear pelo facebook para medir de que forma ela se esconde.
António Pinho Vargas, 12 Novembro 2010

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