domingo, 11 de março de 2012

Alguns pontos para reflexão dos "jovens" compositores

Irei publicar aqui um conjunto de opiniões/ conselhos a jovens compositores, o que a minha idade já permite fazer sem grandes paralisias. O primeiro é paradoxal à primeira vista.  
1. O compositor não compõe para os colegas gostarem, nem os professores gostarem, nem para os críticos elogiarem. Deve compor, primeiro, para a coisa em si, segundo, de acordo com as suas convicções e capacidades actuais e, finalmente, para essa abstracção chamada "público".
No início não há propriamente público: há outros membros do meio - colegas, professores - o que, dada a sua pequenez, se configura como constituído por "outros produtores pertencentes ao campo restrito". Mais tarde, quando houver público propriamente dito, esse estará ali porque quis ir, porque tem curiosidade ou interesse genuíno e não está movido por outras razões obscuras. Nesse momento "é um público" e teremos a grande vantagem de nunca sabermos quem o constituiu. A reacção do público será importante de considerar se o público for um público. Se o for apenas na aparência, na verdade não conta.
Mas, ao mesmo tempo - e aqui reside o aparente paradoxo - o jovem compositor deve manter a atenção desperta para filtar - da multiplicade de opiniões que colegas, professores e músicos estão sempre prontos a dar, no fim, no meio, e até antes dos concertos - filtrar e considerar com atenção aquelas que vale a pena reter por serem honestas e aptas para fazer pensar e evoluir. De modo inverso, deve filtrar aquelas que podem ocultar um preconceito, uma imaturidade ou um objetivo secreto destrutivo, movido pelas mais variadas razões, e ser capaz de, uma vez identificadas as do segundo tipo, as enviar para a espécie de caixote do lixo de onde não deviam ter saído. Mas a estrutura dos campos artísticos é como é e será melhor conhecer bem as regras do seu funcionamento.
A capacidade de distinguir a diferença entre os dois tipos de "opiniões", sendo muito difícil no início, vai-se tornando cada vez mais clara com o tempo. Do mesmo modo, é no tempo, com a sua passagem, que se pode constituir uma individualidade.
 
2. O segundo ponto que quero partilhar mantém alguma tensão com o primeiro já escrito, senão uma aparente contradicção. Enquanto o primeiro se dirige à possibilidade da individuação - criação de um ser autónomo, capaz de administrar o seu próprio auto-criticismo produtivo - o segundo dirige-se à consciência indispensável de que "não se está sozinho no mundo". A capacidade última da individuação será a capacidade de "assinar". Mas, dizem-me na Escola e já pude verificar por mim mesmo, que existe uma tendência crescente para a inversão do problema, ou seja, a crença demasiado precoce de que "Já existe" uma tal capacidade individual. A manifestação dessa crença verifica-se em dois aspectos: a aparição - antes do tempo - da expressão discursiva "a minha música" no discurso do jovem compositor, e de forma concomitante um desinteresse pelo trabalho dos colegas/concorrentes, dos professores, e mesmo dos mestres sacralizados pelas narrativas dominantes ou emergentes- que se traduz na ausência dos concertos com música de outros. Tenho alguma dificuldade em imaginar um poeta que não gosta de ler poesia, um romancista incapaz de ler outros romancistas. É óbvio que este fenómeno resulta do individualismo que se foi alargando nas nossas sociedades a partir dos anos 1980. O lema publicitário "be yourself", destinado a vender bebidas, automóveis ou telemóveis, transmite essa ideologia há décadas. Mas se o "jovem compositor" deve prosseguir o objectivo de criar uma individualidade não forçoso que esse fim implique nem auto-encantamento, nem isolamento-do-mundo, factores produtores de várias formas de autismo. Para usar a metáfora do arquipélago, a constituição do sujeito criativo como único habitante da sua ilha. O risco de uma tal atitude - por vezes, apenas semi-consciente - será que o único habitante da sua ilha criativa pode tornar-se igualmente o único espectador e admirador da "sua" música. A atenção ao mundo implica necessariamente uma atenção ao outro-compositor, diferente, diverso, dotado de uma outra individualidade, é certo, mas eventualmente capaz de desencadear estímulos, impulsos propulsores de respostas criativas.
O equilibrio entre a busca-de-si-próprio e a atenção-ao-outro e o respeito por ele - é fulcral para evitar o autismo em torno de si próprio e eventualmente a constituição de um autor imaginário. A extrema divisão actual em múltiplas tribos favorece subrepticamente o aparecimento desta tentação. Mas o compositor que não ouve música dos outros vai a meio caminho de criar o facto inverso: não ter ninguém para ouvir "a sua própria música" (no caso de ela existir).
 

sábado, 3 de março de 2012