A obra de arte musical e tudo aquilo que se lhe adere do exterior (pencil-effects)
A obra de arte é uma coisa. Uma peça musical é uma coisa. Nesse sentido é lançada no mundo como qualquer outro utensílio que resulte do trabalho humano. Mas Heidegger distingue utensílio e obra de arte. Será no seu ser-obra algo que, para além disso - ser coisa - contém em si um mundo, a posição de Gadamer anos mais tarde.
No seu livro Hermenêutica, Richard E. Palmer comenta de perto as posições de Gadamer e sublinha que, perante uma obra de arte, "é toda a nossa autocompreensão que é avaliada, que é posta em risco. Não somos nós que interrogamos um objecto; é a obra de arte que nos coloca uma questão, a questão que provocou o seu ser".
Em Verdade e Método, Gadamer apresenta uma visão da arte como transformação numa forma, realizada pelo artista, que é verdadeiramente a verdade do ser: "O que antes foi já não é, mas aquilo que agora é, aquilo que se apresenta na interpretação da arte é a verdade que agora perdura". (106). Portanto, a obra de arte interpela os que a observam, a olham, a ouvem, etc. Não se trata de 'mero' prazer estético - como foi pensado durante muito tempo até Kant - mas antes algo que acrescenta mundo ao mundo, sob a forma dessa interpelação irredutível do sujeito ao ser colocado perante a obra: um conhecimento / mundo partilhado que nos interroga.
Julgo ser útil, instrutivo, passar pela posição dos filósofos chamados realistas especulativos de hoje (Manuel DeLanda e Graham Harman) ou realistas críticos (Roy Bhaskar) sobre os objectos existentes no mundo, objectos fabricados, criados pela actividade humana, tal como as obras de arte.
Diz Harman "um lápis é irredutível aos seus átomos, mas também é irredutível à sociedade que o produziu e à gama completa de efeitos-de-lápis [pencil-effects] que gera".
Esta posição permite regressar à obra de arte - sempre enquanto artefacto humano - mas considerar de outro modo os seus efeitos-de-obra.
Nesse modo de ser obra - uma coisa - ela adquire uma independência total do seu criador. Feita a obra, não importa a sua própria opinião sobre ela. Pode guardar afectos ou encantamentos ou insatisfações privadas. Mas está separado dela para sempre. A obra existe enquanto obra que se manifesta e será perene. O público satisfeito ou não com ela - que o interpelou - o crítico indeciso, insatisfeito ou impressionado - na sua própria e particular reacção à interpelação, estão tão distantes daquele ser-obra como o criador. Este fez o seu trabalho artístico que, uma vez terminado, o distancia do resultado: está perante uma coisa lançada no mundo como os outros.
Diz esta posição que não há contexto? De modo nenhum. Os pencil-effects são gerados no mundo, têm lugar nele, mesmo que não se tenha acesso a, nem conhecimento d'os efeitos, de tudo aquilo que é gerado. O que nos diz é que sendo obra ela persiste como tal de forma independente face aos mundos-da-arte que regulam e organizam a vida cultural e que, desse modo - mas apenas desse modo - interferem com o seu destino. Esta interferência verifica-se, não na obra-em-si - permanece igual - mas no seu momento histórico de recepção e de todas essas consequências particulares. Concluindo a sociologia analisa os lugares e a recepção; a filosofia poderá analisar e normalmente fá-lo apenas em geral, analisa a obra enquanto obra de arte.
Uma consciência da importância do lugar onde a obra se enuncia, se realiza, se apresenta pela primeira vez, pode não alterar o modus vivendi criativo, secreto ou público, solitário ou partilhado, de cada artista. O lugar e as suas implicações no seu destino de obra, no quadro dos poderes que regulam o mundo musical, são contextuais e determinados de cada vez, em cada momento histórico, existem tanto como outras coisas do mundo: uma sociedade, uma cultura, uma dominação global, uma subalternidade local, etc. Tudo isto existe. Mas nem tudo é passível de ser reduzido por uma ciência que apresente resultados numa lista, nem por uma hegemonia historicamente provisória. É importante saber e considerar esses efeitos na medida em que são reais. Mas, na obra, sendo irredutível a esses efeitos sociais, historica e geoculturalmente definidos, tal como a diagramas de frequências que possam ser feitos dela e servir um qualquer objectivo cientifico, é fulcral considerar com Gadamer, o mundo criado, o algo que lá permanece, ou seja, a sua irredutibilidade singular. Ninguém pensará que as Paixões de Bach, nos seus mais de oitenta anos de silêncio entre as duas primeiras e únicas execuções até à terceira já nos anos 1830 do século XIX, terá perdido alguns dos seus atributos enquanto obra de arte. Permaneceram sempre - no silêncio - iguais ao que sempre foram uma vez criadas. O modo histórico de recepção é que, pelo contrário, sofreu alterações e mudou.
A obra gera efeitos, tal como o lápis: work-of-art-effects.
Existe a ideologia da music-itself - as ideologias são factos da realidade - que gostaria e pretende retirar a obra do mundo e fazê-la descer de um limbo inexistente. Mas é a obra como objecto-de-arte-singular - cada uma é sempre uma única - que tem ou pode ter a capacidade de inversamente poder criar um mundo em si mesmo e pela sua própria existência. Nenhuma obra de arte é sem consequência - outro facto da realidade.
António Pinho Vargas, Fevereiro, 2017
