Como gerir a multiplicidade dos tempos em que vivemos?
O tempo da crise é o tempo das crises económicas - que podem durar entre vinte cinco e cinquenta anos - sem que a sua presença na actualidade mediática deixe de nos transmitir a sensação de que tudo está por um fio: um tempo médio narrado como tempo frenético. Torna-se um pouco ridículo ouvir um repórter de Bruxelas falar da próxima cimeira europeia, ou do próximo G8 ou G6, não porque elas não mereçam notícia, mas porque o que é dito, foi dito em termos muito idênticos há um, há dois, há três anos, com poucas variantes. Dá a estranha sensação de uma imobilidade de fundo com uma superfície agitada e frenética. A luta política entre os vários responsáveis pela política global prossegue com o anúncio de medidas para combater a crise que se revelam pouco depois ineficazes para combater a crise. Aquilo que faz a actualidade das notícias sobre a crise manifesta-se de acordo com os critérios do tempo frenético dos media. Também os famosos "mercados" financeiros - lugar por excelência da luta dos especuladores - é igualmente regulado pelo tempo frenético. Na especulação financeira, num só dia, biliões de dólares ou euros podem mudar de lugar, de proprietário, de banco, de multimilionário. O tempo da economia, no sentido da acção humana produtora de bens e mercadorias e das suas trocas, é muito mais lento do que o movimento acelerado da troca de capitais. A tecnologia e a internet permitiram essa aceleração brutal.
Mas para um desempregado - aí colocado pela voragem destrutiva das medidas de austeridade, até aqui o remédio erroneamente proclamado para a crise - o tempo que domina a sua vida é existencial e vive-se de acordo com o ritmo da pulsação cardíaca, ou seja, não pára, não tem tempo para parar; é regulado pela necessidade de encontrar todos os dias, no pior dos casos, uma forma de sobreviver, uma forma de comer, uma forma de manter a vontade de viver. É desse modo, o tempo da existência quotidiana dos humanos; em cada minuto, em cada dia, pode passar do espanto para a revolta, da fúria para um sossego de fadiga, da luta convicta para a submissão e a desistência. É um tempo determinado pela crise mas que obriga a acções diárias de sobrevivência. Como vou arranjar dinheiro para a casa, para dar à mãe, para dar aos filhos, para pagar a escola, onde vou viver depois de ir entregar a casa ao banco, etc.
Os políticos, os cientistas sociais, os economistas vivem numa espécie de tempo intermédio: analisar, escrever, decretar, interpretar diariamente aquilo que envia sinais provenientes da profundeza do tempo médio da economia, da rapidez dos movimentos rápidos das bolsas financeiras e, nos casos mais lúcidos, interpretar os sinais inquietantes enviados para o ambiente dos movimentos lentíssimos do planeta, na sua rejeição imparável da agressão violenta dos humanos nas sociedades capitalistas industriais do mundo. Mas a acção deste vasto grupo, em particular dos políticos, sendo diária, só manifesta mudanças de vulto nos períodos eleitorais. Aí, desse tempo intermédio da democracia-actualmente-existente, saem por vezes sinais de alguma esperança para os que sofrem com a crise e sinais de preocupação para os que lucram com a crise. Os sinais são os mesmos, a sua interpretação é que varia conforme são pobres, motivados pela pulsão da sobrevivência, ou ricos, motivados pela pulsão da acumulação de capital.
Esta multiplicidade de tempos simultâneos parece mostrar a que tese de Walter Benjamin de que, nas revoluções, "o tempo sai dos eixos" - de Hamlet, "the time is out of joint" - se tornou o nosso tempo diário "normal", tal como na sua outra brilhante intuição de que nas sociedades capitalistas "o estado de excepção é a regra". Na crise todos os tempos se misturam e interligam.
