sexta-feira, 25 de março de 2011

Ainda sobre A Grande Desorientação, agora da esquerda portuguesa

Hoje mesmo (24-3-2011) Boaventura de Sousa Santos escreve no Público um artigo importante. Antes do mais é muito positivo que depois do consulado do anterior director - durante o qual um verdadeiro boicote invisível mas eficaz foi posto em prática em relação a tudo que lhe dissesse respeito - se possa ler nesse jornal maior diversidade de opiniões políticas, entre as quais a dele, figura ímpar do pensamento português de hoje. Nunca falei com ele sobre isto, nem sequer o ouvi falar deste assunto mas, neste artigo, afirma que "não foi totalmente por que culpa do PS que se perdeu a oportunidade histórica de criar uma verdadeira alternativa de esquerda com vocação de poder". Refere-se ao Bloco de Esquerda que cometeu o que designa por "erro histórico de pensar que havia espaço para mais do que um partido catalisador do voto de protesto e do ressentimento". Já falei uma vez com o meu querido amigo José Manuel Pureza - uma pessoa admirável - sobre aquilo que me parecia uma evidência.
1. Estava o PS no poder a aplicar uma política de direita comandada pela Europa neoliberal.
2. A crise financeira mundial e europeia não dava muitas saídas neste momento.
3. Talvez fosse de tentar estabelecer alguns acordos pontuais com o PS - mesmo o de José Sócrates - que atenuassem o carácter feroz das políticas adoptadas pela Europa face aos países do Sul tenham governos de direita ou de esquerda. Com as aspas que quiserem.
Não foi possível e deste modo com as culpas mútuas do PS -pela maneira como governou no sentido que sabemos - e do PC e do Bloco o nosso país prepara-se para devolver o governo aos partidos de direita.
As perguntas a fazer são as seguintes:
1. Alguém espera no Bloco que a política do PSD e do CDS venha a ser menos gravosa para os pobres, os desempregados, a cultura, os cidadãos que pagam impostos, etc. - ou será com maior vigor e prazer que irão aplicar aquilo que é imposto de Bruxelas?
2. Há alguma hipótese de se verificar "o fim destas políticas" como clama o PC, depois das novas eleiçoes?
3. Ou, pelo contrário, tudo leva a crer que nas actuais circunstâncias, o que irá verificar-se será a continuação eventualmente agravada dessas políticas?
Porquê então este discurso?

Assim sendo verifica-se aquilo que penso já há uns dez anos: que a estupidez da esquerda só é superada pela hipocrisia da direita. (Concedo: a minha estupidez, para não ficar de fora)

É importante que haja partidos de esquerda que contestem este tipo de política, sem dúvida. Esse é o papel do PC. Mas seria igualmente muito importante que houvesse em Portugal partidos de esquerda que admitissem que "a revolução" não é amanhã (será alguma vez?) e que por isso há um certo tipo de acção que se poderia levar a cabo nessa perspectiva, pouco entusiasmante para os radicais, é certo, mas talvez indispensável para a existência de uma mera possibilidade de exercício do poder político nesta fase - com democracia parlamentar, com compromissos europeus que mais parecem ordens, com feroz ofensiva do capitalismo mundial global - que não estivesse apenas dependente da vida interna do PS. Com este tipo de acção, o Bloco entusiasma uma parte dos seus apoiantes mas não contribui para a criação de uma alternativa de poder da esquerda. Continuando assim a "esquerda" no poder, a esquerda capaz de exercer o poder em Portugal será sempre e apenas o PS. Ora como o PS tem uma clivagem interna entre os Tony Blair portugueses e alguns que podem (ou poderiam) tentar mudanças no quadro estreito que se apresenta do exterior, é mais do que provável que mais uma vez sejam os primeiros a vencer internamente com o argumento de que só assim conseguem ganhar eleições.
A esquerda à esquerda dá o poder à direita e sente-se bem com isso. Para mim é igual: pertenço à classe média que paga impostos e que ganha menos agora do que ganhava antes como muita gente. Pertenço há trinta anos - como quase todos os professores do ensino superior de música - àqueles que têm contratos a prazo e nem sequer tiveram alguma vez um horizonte diferente deste. As excepções que existem nesta profissão serão umas 20 pessoas no país todo. Mas sem esta classe média em geral, o capitalismo não funciona porque perde o que resta de consumidores potenciais e bloqueia. Nunca terei helicópteros nem Jaguares (aliás nunca quis, nem quero, ter esse tipo de vida) mas nem a direita pode prescindir da classe social a que pertenço.
Mas os pobres, os reformados, os pensionistas (ainda existem para já) aqueles que vivem no fio do arame da sobrevivência sempre, talvez agradecessem a alguém que colocasse as questões de acordo com aquilo que os pragmáticos americanos do início do século XX - J. Dewey, W. James, C. Peirce - nos ensinaram: as ideias filosóficas devem medir-se pelas suas consequências e não apenas pela especulação interna da disciplina encerrada na Universidade ou na publicação da especialidade, ou seja, de uma forma separada da realidade dos factos.
Julgo que essa oportunidade de que falou Boaventura foi perdida mais uma vez. Em todo o caso um abraço aos amigos que tenho no Bloco. Não estou de acordo simplesmente. Quando chegar a contagem dos votos veremos que preço eleitoral irão pagar. Penso que será alto.

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