domingo, 26 de maio de 2013

Sobre o conceito de poder em Foucault

A utilidade do conceito de poder em Foucault é particularmente importante porque nos mostra que não só o óbvio "poder político do Estado" (etc.) é Poder. Aquele, o poder político do Estado e dos seus agentes (captores ou grandes beneficiários), está actualmente debaixo de fogo e bem.  Este, o poder disciplinar (disseminado em todas as áreas e esferas de actividade, para além do poder do Estado) corre o risco de passar despercebido porque não imediatamente visível e identificável como tal.

Seguem-se alguns extractos de Música e Poder (Almedina, 2011:31-34) que aqui reorganizei de outro modo. Poderá parecer difícil à primeira vista mas não talvez não seja tanto assim. Reclama talvez um esforço inicial mas compensa,

"Quando Foucault afirma que os poderes do Estado são apenas as formas terminais que o poder assume está a sublinhar a existência de muitas outras formas de poder que circulam na sociedade, poder exercido a partir de instituições disciplinares – públicas ou privadas, escolas, hospitais, quartéis, prisões, famílias e fábricas, aquilo que se designa habitualmente como poder
disciplinar, segundo regras, princípios e mecanismos totalmente autónomos do Estado."\

Método:
1. apreender o poder pelas suas extremidades; tomar o poder nas suas formas mais regionais, mais locais, onde ele se prolonga, se investe em instituições, se consolida nas técnicas (Foucault, 2000)
2. estudar o poder no ponto em que está em relação directa e imediata com o seu objecto, o seu alvo, o seu campo de aplicação, no ponto em que ele se implanta e produz os seus efeitos reais. (ibid.: 33)
3. não tomar o poder como maciço e homogéneo – “dominação de
um indivíduo sobre os outros, de um grupo sobre os outros, de uma classe”
(ibid.: 35) – mas como uma coisa que circula, que só funciona em cadeia, que
se exerce em rede".

Definir para reconhecer ou identificar a rede:
4. "O conceito de dispositivo é proposto por Foucault para definir este “agrupamento resolutamente heterogéneo composto por discursos, instituições, estruturas arquitecturais, decisões políticas, afirmações científicas, leis, medidas administrativas, proposições filosóficas, morais e filantrópicas. Em suma, o dito e o não-dito, estes são os elementos do dispositivo: a rede que pode ser estabelecida entre estes elementos” (Foucault, 1994b).

Condição sine qua:
5. "Para Foucault não basta uma boa conceptualização, sendo forçoso conhecer as condições históricas que motivaram a nossa conceptualização.
É necessária uma consciência histórica da nossa presente circunstância.
Foucault insiste que não há um ponto central, um centro único de soberania
mas antes relações de força permanentes mas sempre locais e instáveis.
O poder é omnipresente “porque se produz a cada instante, em todos os
pontos, ou antes em todas as relações de um ponto com outro”.

Aplicação prática:
Por se produzir a cada instante e resultar de "relações de força permanentes mas sempre locais e instáveis" é que reclama forçosamente o nosso esforço da sua identificação enquanto Poder: reconhecer, no quotidiano, todos os dias, o momento no qual ele se manifesta.

António PInho Vargas

1 Comentários:

Blogger Um servo disse...

No quotidiano que o poder se manifesta em sua mais terrível forma, pois o disfarce chega a um requinte tal, que nos sentimos até injustos de irmos contra, é doloroso ter esse discernimento, mas pior é nos deixarmos enganar...Encantada com o seu pensamento tão bem colocado.
Suzana Vasconcelos

30 de julho de 2013 às 20:52  

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