sexta-feira, 27 de setembro de 2013

"The future of music" - comunicação inicial no debate do dia 13 Set 13


Comunicação inicial para o debate "The future of music: is anyone listening?" 
dia 26 Set. 2013, na Culturgest.

1. Uma das maiores  dificuldades do ser humano é admitir que o futuro pode muito bem contrariar as expectativas que temos neste momento, pode contrariar os nossos valores e convicções presentes, que vemos muitas vezes como indiscutíveis e mesmo eternas. Posso dizer que encontro frequentemente posições, contraditórias entre si, mas que têm em comum uma confiança inabalável naquilo que cada um pensa hoje sobre o futuro. Para todos eles o futuro virá a ser exactamente aquilo que cada um pensa sobre o assunto. É um erro muitas vezes associado às convicções e crenças que existem sobre os valores do presente e revela uma espécie de angústia face ao que está para vir e alguma falta de imaginação. O futuro reservará surpresas que não podemos prever, nem estão escritas em lado nenhum.

2. Falar de música hoje implica, em primeiro lugar, ter a consciência de que será talvez mais sábio usar o plural do que o singular. Há inúmeras práticas musicais, provenientes de diversas culturas mas mesmo no interior de um mesmo espaço geocultural, pulverizado em numerosas correntes. Todas estas correntes possuem genuínas formas de criatividade e, nesse sentido, o alarme de alguns teóricos sobre "a morte da música clássica" ou "a crise da música contemporânea", deve ser visto à luz do conceito de morte da arte formulado por Hegel. A morte da arte de Hegel sublinha apenas, na minha opinião, a morte de um "certo" modo de ser e o fim de um certo modo de articulação com o social, hstoricamente delimitado, destinado a ser substituído por outro. 

3.  Um segundo aspecto é justamente considerar que a evolução da tecnologia durante o século XX alterou fortemente a relação entre as músicas, a da tradição escrita europeia com mil anos de existência assegurada pelo suporte escrito,  a dita música "clássica", e todas as músicas das tradições orais ou as mistas de escrita/oral que já existiam, ou que foram surgindo ao longo do século XX, passando a ter um novo suporte de sobrevivência histórica antes ausente, a gravação.

4. Um terceiro aspecto será considerar o impacto futuro das duas formas de existência da música actualmente: a música que resulta da acção performativa de músicos em salas de concertos ou outros espaços criados e a música enquanto objecto tecnológicamente reprodutivel e por isso tornado independente da presença real de músicos a tocar. O século XX assistiu à crescente importância deste factor, mesmo no campo da música do passado, tornada presente nos discos, como na própria estrutura do funcionamento do campo "clássico", no qual a gravação passou a ser um passo decisivo na criação dos cânones de interpretação - "os grandes intérpretes" - e dos cânones da composição - "os grandes compositores" - legitimados e divugados principalmente através de revistas e livros,  com os quais a partitura foi, de certo modo, ultrapassada, não na sua necessidade real e insubstituível para que as obras sejam executadas, mas do ponto de vista da aquisição de poder simbólico. Este é atribuído por instâncias de consagração entre as quais a existência de discos ou gravações se foi tornando progressivamente mais importante.

5. Qualquer reflexão sobre o futuro das músicas implica necessariamente uma reflexão sobre a articulação entre  o seu lugar futuro, enquanto presença - aqui e agora - tanto no quadro das grandes instituições culturais, como no quadro de novos espaços entretanto criados para músicas minoritárias ou, inversamente, para as músicas de dominação global e planetária, os festivais de pop-rock que já não cabem nas salas de concertos tradicionais, como sobretudo na articulação entre a música enquando performance e a música enquanto gravação, ou seja enquanto arquivo, face à indústria cultural, quer na sua vertente de concertos, mas especialmente na sua vertente da indústria discográfica, a sua circulação/ existência/tranformação nas plataformas digitais da internet que muito provavelmente irão interferir e alterar os actuais modos de funcionamento das várias instâncias de consagração que marcam as vidas individuais dos músicos de hoje e do futuro e dos públicos consumidores de hoje e do futuro.

António Pinho Vargas, Setembro, 2013.
 


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