Retrato do artista enquanto trabalhador
Espinosa
Escrevo este texto para os leitores que o quiserem ler, naturalmente, mas, antes de mais, para mim próprio. Precisei de o fazer.
Retrato do artista enquanto trabalhador deriva do título de um livro de Pierre-Michel Menger (aliás, autor citado no meu livro Música e Poder num ponto crucial: a criação do sub-campo da música contemporânea - actualmente em rápida e imprevisível reconfiguração) e, além disso, o título corresponde à forma como vejo a minha actividade criadora: como um trabalho. Esse trabalho consiste em produzir obras musicais. A interrogação que percorre o livro de Menger citado é a seguinte: o que é que conduz as pessoas para uma profissão artística sabendo-se antecipadamente que essa profissão, enquanto tal, é instável, insegura, contingente e desgastante? O seu livro ensaia uma série de respostas a esta pergunta, sendo que, a meu ver, se pode acrescentar uma razão, talvez fora de moda neste mundo utilitário e imediatista, mas que parece indispensável: uma necessidade, uma verdadeira pulsão criativa que opera no recôndito mais profundo de cada ser que a escolhe.
Dito isto proponho-me aqui analisar duas coisas: 1) o meu trabalho enquanto criador de obras-de-arte musical (coisas lançadas no mundo quer ele note quer não note) e 2) o cansaço que sinto hoje. Claro que a idade conta - "O que é que pode um corpo?" - mas a questão só pode ser compreendido pela quantidade de trabalho produzido, tal como qualquer trabalhador do século XIX o sentia muito bem quando, ao fim do dia, regressava a casa depois das 12 horas de trabalho nas fábricas em condições penosas, ou, hoje - sob o regime mundial do trabalho flexível exigido pelo capitalismo neoliberal que comanda a economia-mundo - como regressa a casa depois de submetido às exigências que o obrigam a se reinventar, em curtos espaços de tempo, para desempenhar múltiplas funções, a regra número um do tipo de flexibilidade laboral exigida. O trabalho é específico de cada época e de cada profissão. Mas é sempre um trabalho.
Devo portanto pensar sobre aquilo que fiz nos últimos 10 anos. Tentarei seleccionar aquilo que me parece mais importante da minha perspectiva, para não escrever tudo. Fiz de facto muitas "coisas-obras". Assinalo a negrito as obras e livros gravadas/editadas disponíveis.
- Suite para Violoncelo Solo.
- Quarteto de Cordas nº2 Movimentos do Subsolo.
- 1ª edição de Cinco Conferências: especulações críticas (realizadas em 2005).
2009 - An Impossible Task (3.3.3.1 harps.)
- Trípico para Quarteto de Cordas e Orquestra
- Concerto no IST - improvisação livre - CD Improvisações
2010 - Tese de Doutoramento: Música e Poder (Almedina, 2012)
- One minute to go (Sond'art Ensemble)
- Quasi una Sonata (violino e piano)
- Quatro Novos Fragmentos (versão para flauta e piano).
2011 - Árias de Ópera para Tuba e Percussão (Drumming)
- No Art - quatro estudos para violino solo.
- Onze Cartas para 3 narradores, orquestra sinfónica.
- Estudo para Vibrafone - Políticas da Amizade.
2012 - Quarteto de Cordas nº3.
- Overtures and Closures para Orquestra
- Requiem para Coro e Orquestra.
2013 - Magnificat para Coro e Orquestra.
- Antiques para Viola e Violoncelo (2010-2013)
2014 - De Profundis para Coro a Capella.
- Quadros (de arte moderna) para orquestra.
- Les Octaves Sonata para 2 pianos e percussão (Drumming).
- Three Political Events para orquestra de sopros.
2015 - The Composer para Coro a capella.
2016 - Concerto para Violino e Orquestra.
- Concerto para Viola e Orquestra.
2017 - 3 Pontos no Espaço para 6 orgãos.
- Variações (...memórias...) para piano.
2018 - Quarteto de Cordas nº 4 (quase terminado).
Magnificat - De Profundis (Warner) 2017
Concerto para Violino (mpmp) 2017
Verses and Nocturnes (Naxos digital) 2015
Monodia (Warner digital) 2015
e ainda o CD da Orquestra de Jazz do Hot Club com alguma da minha música de jazz com os seus arranjos, estando prevista uma nova gravação de Six Portraits of Pain em 2018.
Esta lista permite-me concluir que, na realidade, foi realizado nesta década muito trabalho, muito trabalho mesmo. Poderão perguntar-me se todas as obras são boas ou se têm igual importância na sua duração ou valor simbólico (para mim). Não sei se todas são boas mas direi que talvez não. A arte é contingente como sempre foi. Apenas os historiadores agrupam e reagrupam o passado longínquo como totalidade, aquilo que foi apenas feito de cada vez, visto enquanto totalidade retrospectiva. Penso que estão em diferentes patamares de qualidade, tal como de duração, dimensão e desígnio, como é normal com todos os compositores. Em todo o caso, boas ou más, têm o mesmo destino. São muito pouco tocadas em geral ou mesmo não tocadas. Quanto maior for o dispositivo (Orquestra, Coro, Ópera, etc.) menos provável acontece e acontecerá. Destino muito comum, como sabemos. Mas uma boa parte delas fazem parte daquilo a que se liga o meu afecto mais profundo e a minha recordação mais comovida do seu momento inicial. Sobre o problema da vida musical em geral já escrevi um livro e não irei continuar reclamar contra a evidência: esta música "não se inscreve" (Gil) e o seu lugar está ocupado há muito tempo.
Mas, feito isso, não avanço de modo nenhum para nenhuma psicanálise mítica ou mística, nem sequer para nenhuma opinião nem, ainda menos, para qualquer previsão. Quando se usa a expressão "O futuro a Deus pertence", diz-se, em última análise, através da metáfora religiosa, simplesmente que não se sabe. Prever não era aqui o objectivo. É antes poder dizer: "Foi assim, um conjunto de factos reais".
António Pinho Vargas, Maio 2017

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